O
tricô e o Vale do Silício

Roberto Gomes
As políticas implantadas no Brasil, em todas as áreas,
costumam nascer de puro improviso, quando não de oportunismo eleitoreiro.
Algumas vezes decorrem da necessidade de se apresentar um programa de governo,
que talvez jamais seja implantado, ou da urgência em justificar verbas que, uma
vez aprovadas, serão ou não corretamente aplicadas.
Isso se dá na área da saúde, da segurança pública, do
saneamento, da educação. Há muito improviso, embora vez ou outra apareçam algumas
ideias generosas criadas por assessores mais generosos. E há demasiado uso
politiqueiro daquilo que o país realmente precisa.
No caso da educação, destaco um ponto que me preocupa: o deslumbramento
com que os atuais planejadores da educação encaram a informática. Como o
universo de políticos e de burocratas no Brasil não passa por qualquer
reflexão, governando-se por modismos imediatistas ou politicas oportunistas, um
chavão se tornou onipresente entre eles: é preciso realizar a “inclusão
digital”. Qualquer vereador ergue o nariz e um dedo marqueteiro para anunciar,
impávido: inclusão digital.
Nada contra a inclusão digital, esclareço. Mas ela virou um
bordão mágico, espécie de síntese dos novos tempos e anúncio dos tempos
futuros. Tudo se resolveria com a colocação de micros na sala de aula, por
exemplo.
Será?
Eu, que sou dado a dúvidas impertinentes, me pergunto por
que existe tal empenho em colocar a informática no centro da questão
educacional, quando – e isso é notório – a imensa maioria de nossas escolas não
tem bibliotecas dignas desse nome? A meninada ainda não chegou ao livro e
querem que mergulhe no computador. Isso seria imaginar que o computador – que é
um instrumento notável – surgiu do nada, sem vínculo com a Galáxia de
Gutenberg.
Não estou aqui a expressar meras implicâncias ou manias
pessoais. Uso computador desde a metade dos anos 1980, quando adquiri um
daqueles pré-históricos monstrengos da Itautec, o CP500 – 48 Kbytes de memória
RAM! – que nem disco rígido tinha. Funcionava com dois disquetes 5,25
polegadas. Era preciso carregar o sistema, retirar o disco, colocar outro no
qual seriam gravados os arquivos etc. Hoje sou usuário de um notebook que,
trinta anos depois, me parece milagroso. A informática é um avanço notável,
mas...
Há uns meses,
dei com uma notícia vinda dos EUA, onde se dizia que certo professor
universitário aconselhava que se abolisse a escrita cursiva – e, de arrasto, canetas,
papéis, lápis e borracha, pelo que posso supor. A escola deveria ensinar apenas
a escrita em letras de forma, pois é só disso que as crianças precisam para
enfrentar um teclado, argumentava o douto professor.
Que ideia
infeliz. Escrever “a mão”, mesmo em tempos de teclados e telas onipresentes,
nos oferece tempo para reflexão e concentração, desenvolve coordenação motora,
ativa neurônios, cria textos mais generosos e é fonte de prazer, o que não é
pouco para se aprender nos dias que correm.
Portanto,
quando altos executivos do Vale do Silício colocam seus filhos em escolas sem
computadores, é bom – sem abrir mão das maravilhas da informática – não abrir
mão da mão propriamente dita e desses instrumentos fantásticos: lápis, canetas,
papéis, borrachas. E livros. Livros.