Como curar ataques de
gramatiquice

Roberto Gomes
O homem aproximou-se com
uma pompa majestosa e disse:
- Meu nome é Pertético Masmênico Luxes.
Era um tipo magro, tenso,
e parecia nervoso. Usava chapéu branco e finos bigodinhos cinzentos.
Pertético prosseguiu:
- Sou Guarda de
Trânsito... – pigarreou – ...Guarda de Trânsito Gramatical.
- Perdão. Não entendi.
Pertético parecia
ofendido.
- Eu investigo e puno –
disse ele, retirando da cabeça o pequeno chapéu branco, que
passou a rodopiar com mãos nervosas na altura da cintura – casos de ofensa à
língua pátria... pétria, pítria... – disparou, entre piscadelas
nervosas. Desculpe-me.
- Por que se desculpar? É
seu trabalho.
- Não se trata disso. Peço
desculpas porque sempre que digo língua pátria... pétria, pítria...,
sou levado a repetir pétria, pítria. Não entendo a razão. Um cacoete,
compreende? Perdão.
- Me parece curioso.
- Parece-me curioso.
- Ao senhor também?
- Não. Refiro-me a sua
frase. Não se deve dizer “me parece”. O certo é “parece-me”.
Ele tentou sorrir:
- Entendi. Rigores
gramaticais de guarda de trânsito.
- É preciso manter a
pureza da língua pátria... – Pertético tentou conter-se, mas disparou, nervoso:
...pétria, pítria... Desculpe-me.
- Está desculpado. Mas –
foi sua vez de disfarçar a irritação: O senhor me procurou para quê?
- Este “que” é com ou sem
acento circunflexo?
- Com. Acho.
O chapéu parou de rodopiar
em suas mãos e Pertético bateu os calcanhares, ao modo militar:
- Há uma reclamação contra
o senhor.
- Reclamação?
- Um B.O.
- Boletim de Ocorrência? O
senhor é da polícia?
- Não. Boletim
Ortográfico. Como sabe, é preciso respeitar a pureza da língua pátria... –
Pertético contraiu-se por inteiro.
- ...pétria, pítria... –
ele tentou ajudar.
- ...pétria, pítria... O
senhor tem o mesmo cacoete?
- Não. Mas acho que este
troço pega. Lembro de uma frase de...
Pertético o interrompeu:
- O prezado acaba de
cometer outro erro, não me leve a mal.
- Qual? espantou-se.
- Regência verbal. A
regência verbal, como o prezado amigo deve saber, é um problema seriíssimo. –
Pertético ergueu um dedo no ar: Seriíssimo!
- Seriíssimo, repetiu ele,
calculando se deveria chutar ou estrangular o sujeito.
- Voltando à questão da
língua pátria... – Pertético fechou os punhos e gritou: Ai, meu Deus, de novo!
Chega! Chega!
- ...pétria..., ajudou
ele.
- ...pétria, pítria... Pronto. Pronto!
- Calma, o senhor está
muito agitado. Vou lhe servir um cafezinho.
Colocou a xícara a sua
frente. Pertético provou o café:
- Está sem açúcar,
reclamou.
- Perdão. Eu tomo sem
açúcar, esqueço de oferecer.
Pertético sorriu,
sentindo-se relaxado diante de tanta gentileza. Pediu:
- Me passe o açucareiro.
Ele exclamou, estarrecido:
- Viu o que o senhor
disse?!
- Eu?!
- O senhor disse: Me passe
o açucareiro.
- Eu disse isto? Meu Deus, feri a pureza da língua pátria!!
Foi quando Pertético
Masmênico Luxes deu um salto de alegria e gritou:
- Viu? Não repeti pétria,
pítria! Não repeti! Língua pátria! Estou curado!
E saiu porta afora, dando
cambalhotas, aos berros:
- Estou curado! Língua
pátria! Estou curado!
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