Diálogos nada platônicos

Socrate
et Xantippa, 1612, Otto Von
Venni
Roberto Gomes
Xantipa, a mulher de Sócrates, passou à história da
filosofia como criatura intratável, irascível, incapaz de entender o que o marido
fazia o dia inteiro tagarelando na ágora – a praça
grega – a respeito de conceitos filosóficos, enquanto em casa faltava o pão, o
vinho, a azeitona e outras coisas que ela considerava indispensáveis à vida em
comum. A seu ver, o marido deveria empregar melhor o seu tempo e ganhar algum
dinheiro extra ao invés de discutir filosofias.
Por esta razão, num dia do
século IV a.C., Sócrates entrou em casa, já de madrugada, rezando para que Xantipa estivesse no sétimo sonho. Levou azar. Plantada no
meio da casa, as mãos na cintura e uma expressão de fúria trágica nos olhos,
ela o esperava:
- São
horas, seu Sócrates?!
- Ignoro as horas, Xantipa. Para um filósofo, a questão do tempo...
- Filósofo uma pinóia! Não
enrole!
- Xantipa,
seja sensata, a virtude está na moderação...
- Chega de moderação! Onde
é que o senhor andou até estas horas, enquanto aqui em casa só não falta o ar
para respiramos?
- Estive com amigos. A
amizade, você sabe...
- Não chateie. Eu sei o
que é amizade. Só os filósofos não sabem! Mas que amigos são estes? Fazendo o
que?
- Aconteceu o seguinte, Xantipinha.
- Não me chame de Xantipinha!
- Está bem, está bem. Fomos
ao Pireo para honrar a deusa e assistir à festa que
seria ali realizada pela primeira vez. Depois de nossas orações e de termos contemplado
a cerimônia, estávamos de saída quando Polemarco,
filho de Céfalo, você conhece, mandou, através de um
escravo, uma ordem para que ficássemos.
- Uma ordem? estranhou Xantipa.
- Isso mesmo. Ordem.
Deveríamos ficar para assistir a uma corrida de tochas a cavalo em honra da
deusa.
- Corrida de tochas a
cavalo?
- Isso mesmo.
- Muito estranho. Vão
passar as tochas em carreira?
- Foi justo o que disse a
eles! exclamou Sócrates.
Xantipa largou sobre a mesa um pano de chão que segurava
até aquele momento e esticou o indicador na direção de Sócrates.
- História
muito mal contada, senhor!
- Pode perguntar aos que
lá estavam. Lísias e seu irmão, Eutidemo,
Trasímaco, Carmántides, o
filho de Aristónimo, Clitofonte,
Céfalo...
- A quadrilha de sempre, resmungou
Xantipa. E o tal Alcebíades?
- Que tem ele?
- Sei não. Essa história
de que Alcebíades é belo, essa coisa de amor entre iguais. Sei não! Não estou
gostando nada disso!
- Ora, Xantipa, somos gregos...
- Eu não sou grego! Sou
grega! E o senhor poderia fazer algo que trouxesse algumas dracmas
para dentro de casa! Fica aí discutindo a justiça, as leis, o amor, a alma, e
eu aqui, sem um tostão, cuidando das crianças. Por que não faz alguma coisa que
dê lucro na vida? Vive discutindo com desocupados, jogando conversa fora e nem
mesmo escreve o que fala. Por certo estava lá o tal de Platão, esse riquinho
metido a sabido, anotando tudo nas suas cadernetinhas de repórter. Pois aposto
que um dia ele vai se apropriar de tudo que dizes por aí e ficar com a glória e
a grana! E eu aqui com três filhos para criar.
Depois desta explosão de
fúria, Xantipa fechou-se no quarto e foi dormir.
Sócrates, sem sono, observou que a cozinha estava abarrotada de louças sujas e
resolveu colocar uma ordem naquilo. Na manhã seguinte, quando Xantipa acordou e viu a faxina feita por ele, saiu gritando
de alegria e sapecou um beijo nas bochechas gorduchas do marido, que dormira no
átrio:
- Socratezinho,
meu amor! Você é um anjo! O melhor marido do mundo!
Mesmo sendo filósofo,
Sócrates entendeu neste dia que um homem pode conquistar territórios, defender
grandes idéias, lutar muitas batalhas, mas só quando lava a louça de casa
torna-se um herói aos olhos de sua mulher.
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