Votos e gramatiquices
à parte

Roberto Gomes
Como qualquer
brasileiro, volta e meia me vejo humilhado por uma dessas regrinhas
gramatiqueiras, sobretudo aquelas que governam – ou pretendem governar – a
crase. Embora, como disse Ferreira Gullar, a crase não tenha sido feita para
humilhar ninguém, a verdade é que ela não perdoa.
Pois lá estava
eu martelando o teclado quando escrevi: “tijolos a vista”. Embatuquei,
paralisado de horror diante da questão: leva ou não leva crase? Achei que
ficava melhor sem crase e fui em frente. Mas alguém me advertiu: leva crase.
Pronto, estava instalado mais um drama gramatiqueiro.
Resolvi
recorrer ao mais onipotente, onipresente e onisciente dos recursos enciclopédicos
do século, o Google. Naveguei pelos sites dedicados à gramática e minha
confusão só fez aumentar. Aqui se argumentava que não havia necessidade de
crase, ali, no entanto, alguém exigia a crase e dava exemplos sábios. Mais
adiante, alguém argumentava: é facultativo nesse caso.
Deixei sem
crase. Mas, ameaçado por aquela humilhação que a gramática faz pairar sobre
nossas pobres cabeças, busquei socorro escrevendo um e-mail ao meu amigo Carlos
Alberto Faraco, rapaz sabedor de muita lingüística. Perguntei a ele: vai ou não
vai?
O Faraco
respondeu com aquele humor inconfundível e me explicou que segundo alguns, vai; segundo outros, não. Outros dizem que o uso
nesse caso é facultativo. Conferia com minha pesquisa na rede, portanto. Mas o
Faraco acrescentou que “sempre tem aquele teu amigo pentelho metido a linguista (lembra??) e não vale a pena se encher o saco com
picuinhas. Por isso, recomendo que use com a crase. Se alguém protestar, você
diz: ‘Caro mio, é assim que está no Houaiss’. E o
assunto se encerra sem delongas e milongas”.
As sábias
palavras do meu amigo me aliviaram, mas criaram outro problema, talvez maior.
Súbito, uma palavra me veio à mente: facultativo. O uso é facultativo. Lembrei
que, quando dirigi a editora da UFPR, enrascada na qual o Faraco me meteu, sempre
que se aproximava um feriado pela proa, algum funcionário vinha conversar
comigo:
- Trabalhamos
na segunda?
- Sim, eu
respondia.
- Mas é
facultativo, surpreendia-se o funcionário.
Eu, massacrado
por anos de exercícios de lógica, explicava:
- Bom, nesse
caso, podemos trabalhar ou não. Que tal trabalhar?
E o
funcionário, desconsolado:
- Mas,
professor, é facultativo...
Foi quando eu
entendi que, na cultura brasileira, o facultativo se torna sempre obrigatório.
A crase facultativa é uma ficção. Para não se chatear, é melhor usá-la.
Os leitores
vejam o caso do voto obrigatório. O voto é um direito democrático. Sendo um
direito, cabe a cada cidadão exercê-lo ou não. Por exemplo: temos o direito de
ir e vir, mas ninguém é obrigado a ir e vir, o que se chocaria com o próprio
direito citado, que implica a possibilidade de ficar parado. Temos o direito
constitucional à felicidade, mas ninguém pode ser obrigado a ser feliz. Adotamos
o direito à propriedade, mas há quem se lixe para ele. E o direito à liberdade
religiosa, por acaso nos obriga a aderir a uma religião? Temos até mesmo
direito à vida – mas ninguém é obrigado a viver e alguns, infelizmente,
renunciam a ela voluntariamente. Deveriam ser obrigados a não renunciar? Mas
como punir os que suicidam?
Vejam a
confusão causada a eleitores que moram no exterior. Não são obrigados a votar,
mas, aqueles que se inscreveram para votar e não o fizeram, não poderão renovar
seus documentos. Leis estapafúrdias geram conseqüências estapafúrdias. Por
exemplo: para votar, servem vários documentos, menos o
título de eleitor.
Eis aonde
cheguei, partindo de meus sofrimentos com a crase, com funcionários públicos e com
leis que nos tratam como criaturas despidas de cérebro.
Pensando bem,
voto obrigatório só serve para a formação de currais eleitorais, o que, não
sendo direito de ninguém, deveria ser proibido. Da forma mais simples: tornando
o voto apenas um direito. Facultativo, portanto. No bom sentido.
e-mail: roberto.o.gomes@gmail.com