Viva o Glauco, viva a Vida.

Roberto Gomes
Para mim, os desenhos
do Glauco eram uma surpresa só. O que mais me fascina
neles é a agilidade do traço. Curiosamente, a mesma agilidade caligráfica que
fazia o fascínio dos desenhos do Henfil, agora filtrada
por um traço racional, preciso, enxuto. Glauco seria a mistura ideal de Henfil e Nássara, se não estou
dizendo bobagem. Uma geometria rigorosa e não-euclideana
de todos os gestos e movimentos. Ele parecia ter superado a divisão entre o
racional e o irracional. Se os traços eram limpos e retos, o conjunto era
móvel, enlouquecido, instável. Geraldão com um copo
de uísque, uma seringa, alguns copos, um cálice e, além disso, com o pirulito
em riste. E as pernas que se multiplicavam, três, quatro, a bunda
e o umbigo picassianos em solução cubista, disparando
o personagem de um lado para outro até a cambalhota e o
mergulho finais, de ponta cabeça, no chão que se abre num buraco
estrelado.
Outro fascínio
era a síntese, a arte por excelência de todo bom
cartunista, que Glauco dominava com uma maestria notável. Como tantas coisas,
tantos gestos, podiam formar uma unidade tão precisa?
Vinha então o
golpe final: um direto de direita. Todo mundo repete – e não se trata de uma
daquelas unanimidades burras – a frase de Cortázar
segundo a qual no romance o escritor vence por pontos e, no conto, por nocaute.
O mesmo se dá com as tiras. Glauco nocauteava que era uma beleza. Três
quadrinhos e era um golpe só.
Síntese que se
revelava também na natureza dos personagens, universais e únicos: a mãe, a boneca
inflável Sharon Stone 1.8, Zé do Apocalipse, os Etes, Netão. Todos assumidos e
robustos neuróticos, criaturas obsessivas que se sabiam obsessivas e que faziam
disso um trampolim para vencer as aflições da solidão: a sexualidade reprimida,
em Geraldão e na oferecida dona Marta, o ciúme
rancoroso e doentio do casal Neuras – ela saindo para
uma farra e ele se mordendo de ódio. Mesmo os Nojinskis,
voando em seus tapetes, eram marcados pelas mesmas obsessões estapafúrdias e
doidas, rumo ao próximo desastre. E Edmar Bregmam, o cineasta que jamais terminou um filme, revelando
angústias existenciais ao cão Fox e ao garçon Claquete.
O absurdo era o
companheiro de todos os personagens, um clima que pareciam partilhar com seu
criador. Esse universo das incompatibilidades e choques,
fosse dos ciúmes entre marido e mulher, das neuras
entre mãe e filho, das correrias entre o traficante e o policial, era o pano de
fundo de todas as batalhas, travadas em quadrinhos fulminantes.
Glauco tirava
dessas situações o melhor humor. Dava uma cambalhota
ao longo da tira e concluía com um saldo positivo: a vida era diversão, arte,
farra, prazer. Apesar dos golpes de enceradeira e das neuras
do amor. Para Glauco, o prazer e o humor eram instrumentos que permitiam
superar o absurdo e a dor. Superação à maneira de Nietzsche ou Albert Camus,
talvez. Devemos acreditar que, tal como Sísifo, Dona
Marta, solteirona faminta de amor e sexo, exibindo desabusadamente
seu corpo e seus desejos, era feliz. Não era amada nem desejada, mas mostrava a todos que queria amor e sexo – e isso quase bastava: ela
ao menos sabia o que queria. Como não escondia as razões de seus conflitos, de
alguma maneira era feliz e ria dos ascensoristas, dos colegas de trabalho, dos executivos
em pânico diante de seus seios, dos patrões alarmados que ela tentava inutilmente
seduzir. Enquanto isso, Geraldão vivia seu sexo
solitário sem desistir, espécie de Sísifo da frustração
sexual, reiniciando sempre. Recomeçava a cada dia, sobretudo se fosse um
domingão. Lá estava ele, animadíssimo, pronto para uma nova investida, teso e
sorridente, enquanto a enceradeira materna não vinha arremessá-lo através da
janela.
Vencer a
repressão – aquela que está fora de nós ou aquela que
trazemos em nossas pobres cabeças, se há alguma diferença entre as duas – eis o
segredo da farra humorística de Glauco. Se não era possível satisfazer o desejo
por inteiro, que ao menos se fizesse um brinde às fantasias sexuais, amorosas,
políticas, humanísticas etc.
Agora, cá
estamos sem o Glauco, vítima dessa avalanche de violência que parece se
alimentar de sua própria insanidade. Ficamos mais pobres, mais solitários, mais
sofridos, mais perdidos em neuroses. Diante dos desastres do amor e da vida, quantas vezes nos faltará o terceiro quadrinho com seu
direto de direita e sua cambalhota salvadora?
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