Velhos chumaços já
vividos, agora inúteis

Roberto Gomes
Num livro
infantil que escrevi faz tempo – Aristeu e sua aldeia – o personagem ao
qual o título se refere é um velho sábio e amalucado que se dedica a discutir ideias e a dar palpites a respeito de todas as coisas. É
amado pelo que faz.
Uma de suas
ocupações é preservar palavras. Quando percebe que uma delas está sendo
abandonada, trata de usá-la em suas conversas. O benefício, diz ele, é que o
mundo em que cada um de nós vive tem a dimensão das palavras que conhece. Menos
palavras, um mundo menor, muitas vezes sem nuances e sutilezas. Mais palavras,
a possibilidade de um mundo mais vasto e generoso.
A ideia até hoje me parece boa. Mas, de uns tempos para cá,
sou perseguido por uma ideia contrária. E se
proibíssemos certas palavras? Embora ache que proibir – ainda mais em questões
de língua – é quase sempre um ato cretino, essa ideia
anda me ocupando com certa frequência. A culpa não é
tanto minha ou de minhas convicções (que não são tantas), mas do que vejo e
ouço a minha volta.
Vejam o caso
das palavras esquerda e direita. Com as novas esquerda e direita que florescem
mundo afora, cada vez mais matutas e obtusas, ando imaginando se não seria o
caso de proibí-las. Causam mais
confusão do que conhecimento, mais atritos do que sabedoria, mais reboliços do
que transformações. Além disso, quando um sujeito aplica a si mesmo uma delas,
assume ares de grande sapiência, com o que coloca o outro no lugar de uma besta
quadrada. Nada disso me agrada.
Dia desses
encontrei um esquerdista e fiquei ouvindo a longa explanação que me impôs sem
me pedir licença, naquela tarde ensolarada, às três horas da tarde, 29 graus no
mostrador da esquina. Na verdade, ouvi pouco. Como me distraio fácil, logo me
vi pensando em outras coisas enquanto ele seguia falando. Me
chamou a atenção um certo ar envelhecido do sujeito. Não um
envelhecimento de idade, coisa desculpável a qual todos estamos sujeitos, mas
de um envelhecimento de época. Era como se ele me falasse de outra época
utilizando uma língua ainda mais remota. É verdade que ele usa uma barba
rústica e nervosa, na qual costuma dar uns repuxões violentos, espécie de
alavanca para novos pensamentos. Suas roupas são da década de 1970, as ideias são de
Foi quando
surgiu um conhecido comum que, como ocorre nesses casos, se intrometeu na
conversa e largou falação contra o esquerdista, sendo ele um sujeito de
direita. Explico: é direitista perfumado, cabelos em ordem rigorosa, terno
cinza e gravata amarela que mal conseguem conter o corpanzil transbordante em
barrigas, papadas e tentativas de aparência jovial. Pior: usa um desses
perfumes enjoados. Ou seja, aquele tipo kitch-classe-média-matuta.
Pois ele enfiou
o dedo no nariz do esquerdista e defendeu, se não me engano, a iniciativa
privada. O outro retrucou com a Petrobras. O primeiro sacou estatísticas,
dizendo que as classes sociais se dissolveram, e arrematou dizendo que
conceitos já sem sentido no século XX, agora caducaram. O esquerdista
enfiou-lhe ouvido adentro uma torrente de injustiças sociais que desmentem o
paraíso capitalista.
E lá ficaram em
pé de guerra, enquanto eu, zonzo, temia que a qualquer momento se pusessem a
latir. Chegariam a isso, se eu não olhasse para o meu dedo indicador e nele
visse um barbante vermelho. Era um lembrete: eu tinha que cortar o cabelo.
Expliquei isso aos dois e, como diz meu filho, vazei.
Ao chegar na esquina, olhei para ver como estavam se
saindo sem mim. Já se despediam.
Por essas e por
outras, às vezes nego meu personagem Aristeu e caio na tentação de propor o
abandono de certas palavras. Com o tempo, talvez fôssemos desbastando palavras
e equívocos mais ou menos como o meu cabeleireiro – que já foi barbeiro – faz
no momento em minha cabeça: poda daqui, apara dali,
enquanto observo, naquela beatitude zen que o corte de cabelo produz, o chão se
encher de velhos chumaços de cabelos já vividos, já pensados, agora inúteis.
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