Tiro
aos patinhos – ministros em queda livre

Roberto Gomes
Quando eu era menino, os padres faziam muitas festas de
igreja. Na minha memória aquilo era uma espécie de circo com brincadeiras de
pescaria, de jogar argolas em garrafas e do tiro ao pato. No caso, patos de
metal que vinham nadando num mar desenhado na madeira, fazendo um barulhinho
chato, o que aumentava minha vontade de acertar todos eles. Tiro ao pato era
uma diversão e tanto.
Faço esse rodeio para lembrar aos leitores que há algum
tempo deixei de falar de, digamos, política. É preciso ter saúde de ferro para
seguir os atropelos da política nacional e, confesso,
minha saúde e paciência não são grandes coisas nesse caso. Abandonei o assunto
na crença delirante de que, ao abandoná-lo, ele me deixaria em paz. Lêdo engano, como dizia meu professor de português. Como no
caso dos patos de tiro ao alvo, novos patinhos aparecem e o tiroteio continua.
Foi quando lembrei que os patinhos, se me divertiam, me irritavam. Eu era bom de tiro e acertava
bastante, a bala de chumbinho estalava no metal e o pato caía para trás. Mas
logo vinha outro e, em seguida, aquele que caíra voltava à cena, já refeito.
Era enervante.
Pois é assim que tenho visto a assim chamada política
nacional nos últimos tempos. Na era Lula tínhamos os
patinhos da ocasião e seus nomes curiosos – mensalão, dólares na cueca, propinoduto, valerioduto etc. – repetindo-se
sem fim ou solução. Lula era mestre em fazer de conta que não sabia de nada.
Amoitava-se e a coisa passava. Surgia o escândalo seguinte, a polícia federal
armava mais uma operação com nome retirado da mitologia grega, e a nação seguia
seu curso cambaleante.
Agora, sob Dilma, temos um arranjo diferente, mas a dança
dos patos me parece a mesma. Surge um pato, digamos, um ministro de tal pasta, afloram as denúncias, as
gravações, os documentos, as filmagens, e a presidente diz que não é nada,
intriga da oposição, denuncismo etc. Depois, acuada, diz que os malfeitos devem
ser apurados.
Bom, deixo de lado a coisa dos patos para confessar que me
irrita isso de malfeitos. Nunca gostei de eufemismos. Acho que existe mesmo
corrupção, roubo, extorsão, bandalheira – malfeito era, em
tempos passados e mais ingênuos, aquela coisa que homens de boa lábia costumavam
fazer com donzelas indefesas. Há roubo, portanto.
Bem, diante da artilharia, lá vem o ministro nadando feito
patinho. E tome tiro. Uma semana, duas no máximo, cai
o ministro. Quer dizer que não era denuncismo gratuito e irresponsável da
oposição. Ou não?
Imagino que sim. E logo um novo patinho aponta no canto do
cenário de tiro ao alvo. Começa tudo de novo. Não é nada, diz a presidente.
Mandei apurar, diz o seu secretário. Nada se apura, as
coisas são tão evidentes que nem precisam de apuração. E lá se vai mais um ministro.
Assim, lá se foram vários deles enquanto que o alvo atual
diz que chumbinho não o derruba, será preciso tiro de grosso calibre. Correndo
o risco de ser injusto, me parece que não existem ministros honestos – existem
ministros que ainda não foram investigados. Mas, tal como os patinhos, os
ministros voltam à cena, circulando por aí livremente, de alguns sabemos que se
tornaram assessores, conselheiros, rasputins de
aluguel.
Como se sabe, o denunciado de ontem, que multiplicou 40
vezes o seu patrimônio, hoje é um tipo faceiro que sai de férias e dá
assessoria. Se o tipo fez tais e tantos malfeitos, para usar a linguagem
piedosa da presidente, não seria o caso de estar respondendo a processos? Que tal algemas e cadeia?
Mas não.
O Brasil é imenso nessa arte de perdoar, de tudo absorver,
complacente ao extremo. Eu, que sou dado a me assustar com tais coisas, dia
desses liguei a televisão e vi lá um rosto hirto, duro, um olhar de águia
vingadora acima dos lábios rígidos, a gravata larga e a voz de trovão. Tirando
o cabelo, que branqueou, reconheci de imediato: Collor, aquele, com dois eles.
Dirigindo trabalhos no senado, presidindo uma alta comissão de assuntos
internacionais.
Outro, que tinha algo a ver com dólares da cueca, exerce
mandato. Outro fica em casa e goza os prazeres da fortuna. Outros não
explicaram onde foram parar as propinas, o caixa dois, as verbas desviadas. De
que adiantou terem sido defenestrados?
Tal como os patinhos, lá vêm eles de novo. Por isso não
tenho mais escrito sobre isso que chamamos de política. É irritante. Ao menos
na minha infância era possível dar um tiro nos patinhos.