Tirem os leitores da sala
de leitura

Roberto Gomes
Trata-se de uma pequena nota
de jornal, sufocada pelo enorme volume de textos e fotos e gráficos e
estatísticas que enchem as páginas de esporte com matérias sobre o Grande
Prêmio Brasil, esse que foi disputado no domingo passado e que decidiu o título
de Fórmula 1. Uma pequena nota, sendo pequena, suspeita-se que não tenha
importância e que dela não seja possível tirar mais do que alguma informação de
valor limitado.
Confesso que não acompanho
corridas de automóvel. Até gosto de automóveis, mas sem exageros: me levam de
um lado para outro, só. Acho que gosto mesmo é de um Opala 73 que tenho comigo
desde 1973 e que continua novinho em folha. As corridas me parecem demasiado
mecânicas, tecnológicas em excesso, decididas por cálculos feitos por
engenheiros – os saudosistas falam de um tempo em que eram decididas no braço. Ocorre
que assisti ao final da corrida, depois de dormir um justo sono que começou
logo depois da terceira volta. Acordei na hora certa – e confesso que me
entusiasmei. Só um bom roteirista seria capaz de inventar aquilo: o suspense
até os últimos segundos da última volta. A vitória e a derrota num só
personagem. Foi perfeito, ao menos para mim, que dormi na parte da corrida que
considero sem graça.
Mas devo falar de outra
coisa. Dias antes da corrida, Felipe Massa, que é um rapaz talentoso,
participou de um evento numa escola do Jardim Umarizal,
bairro de São Paulo. Como era de se esperar, causou furor entre alunos e
professores. O Colégio Escola Estadual Dr. Francisco Brasiliense Fusco o homenageou
com a inauguração de uma sala de leitura que agora leva seu nome: sala de
leitura Felipe Massa.
O evento teve algumas falhas.
Uma delas: foram doados mil e duzentos exemplares, mas eram de apenas cinco
títulos, segundo informam os jornais. Além disso, pelo que constatei, os
títulos não me parecem adequados aos objetivos da campanha, ou seja, fomentar o
interesse pela leitura entre os jovens. E é de se perguntar o que será feito de
tantos exemplares de apenas cinco títulos numa biblioteca de um bairro da zona
sul de São Paulo.
Confesso que não achei surpreendente a
informação algo maldosa de que Felipe Massa confessou não ser dado a leituras.
Não soube declinar o nome de nenhuma obra que tivesse lido nos últimos anos e,
com algum esforço, lembrou ter lido, há muito tempo, um livro sobre Ayrton
Senna, mas não soube dizer nem o título nem o autor.
Convenhamos que um piloto
de Fórmula 1 não precisa ter entre seus interesses principais a leitura de bons
livros, embora isso dificilmente lhe fizesse algum mal. Pilotos têm uma visão
muito específica do mundo, que para eles é feito de máquinas, engrenagens, peças,
óleo, gasolina, explosões, carburadores etc. Adoram falar de curvas, retas,
freadas, ultrapassagens, e das valentias de que são capazes em velocidades
apavorantes. Ou seja, não são criaturas que se debrucem sobre livros. No que,
aliás, não são diferentes da grande maioria dos brasileiros.
O que me chamou a atenção
é que tenha ocorrido a alguém – um destes gênios promotores de eventos
culturais – dar o nome de um piloto a uma sala de leitura, imaginando com isso incentivar
o aparecimento de novos leitores. Nenhuma culpa do piloto, que estava ali apenas cumprindo algum
contrato publicitário. O que surpreende é a tolice brasileira (e talvez
mundial) em se buscar o apoio de “celebridades” quando se trata de promover
livros ou coisas que se abrigam sob o rótulo de “cultura”.
A distorção está nisso. No
culto à celebridade. Na crença desastrada de que, se uma figura notória é
fotografada com um livro nas mãos, isso levará os jovens a ler. Engano. Se a
“celebridade” empunha um livro ou nos mostra um salame, dá no mesmo. O que a
celebridade vende é o próprio culto à celebridade. E livros não são salames.
Se um dia algum jovem desta
escola abrir um daqueles livros, creio que se decepcionará. No que as “Novelas
Paulistanas”, de Alcântara Machado, poderão satisfazer seu desejo de holofotes?
Quem sabe os publicitários
estejam convencidos de que livros e seus verdadeiros leitores sejam criaturas
sem graça para serem apresentados aos estudantes. Quem sabe isso seja apenas
mais uma face do desprezo cultural pela leitura que existe entre nós.
Como se vê, nem sempre uma
pequena nota de jornal é apenas uma pequena nota de jornal.
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robertogomes@criaredicoes.com.br