Tié era melhor do que Pelé

Roberto Gomes
Aqui no boteco
do cego Tião, tem um sujeito, vindo das Minas Gerais, que se chama Miltinho – ou melhor, Miltin.
Pois é duro
conversar com o Miltin. A gente conta um causo,
inventa uma história qualquer – já acrescida das mentiras naturais de quem
conta causos – e o Miltin nem se abala. Coça a barba,
desce a mão esquerda pelo pescoço, como se o espichasse para baixo, e lasca uma
outra história que derruba a nossa. Na história dele, o causo é mais
surpreendente, mais mirabolante e, acima de tudo, revela que ele dispõe de
informações com as quais jamais sonharíamos.
Foi o que se
deu quando Paulinho Ventura, atleticano alucinado – alucinado porque nos
últimos anos só consegue comemorar o não-rebaixamento do time – e Carlão
Borracheiro – que é coxa e, coitado, nem isso pode comemorar – estavam rasgando
conversa sobre futebol. É bom dizer que os dois só falam de futebol do Rio de
Janeiro para cima ou de Santa Catarina para baixo. Atletiba é tabu. Não querem
arriscar a velha amizade.
Por isso, entre
cervejas e copos de cachaça, sentados na mesa ao lado do balcão onde o cego
Tião dormitava, ficaram retirando do baú algumas jogadas clássicas de Pelé, que
era genial até quando não fazia o gol esperado. Aquele em que driblou o
Mazurkieviski sem tocar na bola, o outro que chutou do meio do campo. E o gol
que não fez na Inglaterra? Meu Deus, que cabeçada! E a defesa do Banks! Ninguém jogou futebol assim, disse um. Nem pensar,
disse o outro.
Foi quando
chegou o Miltin.
A chegada de Miltin obedece a um ritual. Estaciona – é o termo – ao lado
da mesa, olha em volta, dá um sorriso maroto e pergunta se é bem-vindo. Não é, ele sabe, mas nem espera pela resposta. Vai sentando.
Pois o
Paulinho, rapaz gentil, querendo melhorar o ambiente, disse que estavam lembrando
das façanhas de Pelé, aliás nascido no mesmo Triângulo
Mineiro de onde viera Miltin. Ele mirou um e outro, alisou a barba, deslizou a mão pelo pescoço e
disse:
- E daí? Que
tem o crioulin?
Carlão ficou
cabreiro:
- Que crioulin, sujeito? Pelé. O maior jogador do mundo!
A mão esquerda
de Miltin subiu e desceu ao longo do pescoço:
- Isso porque
vocês não conheceram o primo dele.
- Que primo?
- Tié.
Paulinho
cortou:
- Me desculpe,
mas tem Tié nenhum no futebol brasileiro.
- Cê é que não viu. Os dois começaram num campinho ao lado da
minha casa. Tié era muito melhor do que Pelé. Chutava com as duas, cabeceava, driblava
feito capeta.
- Pelé também,
não chateia – disse Carlão, irritado.
- Claro,
aprendeu com o Tié.
- Não acredito.
- Azar seu, sô.
Era muito melhor, nem comparação. Sabe gol de curva, no cantinho? Fazia um
atrás do outro.
- Me diz uma
coisa. – foi a vez de Paulinho Ventura – Onde foi
parar esse Tié?
A mão na barba,
no pescoço, Miltin deu um tempo e explicou:
- Foi comprado
pelo Santos quando o Pelé ainda se chamava Gasolina. Fez o maior sucesso nos
treinos, deixou o Zito sentado no campo várias vezes, meteu
uma bola no meio das pernas do Gilmar.
- Tá bom. E onde foi parar a figura?
- Bão. É que ele, além de jogar mais do que o Pelé, era um
crioulo muito mais bonito. Se enrabichou com a mulher
de um dirigente, o cara era da pesada, acabou com o futuro dele no futebol.
- Deixa de
conversa, Miltin.
- Conversa
nada. Foi quando foram buscar o Gasolina. Até isso ele
deve ao Tié.
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