Tem
gente olhando

Roberto
Gomes
O quarto às escuras, os
dois corpos se possuem com sofreguidão quando, subitamente, o homem pára, olha
para trás e diz:
- Tem gente olhando!
Ela leva um susto:
- Tem o quê?
- Gente olhando.
Ele puxa as cobertas,
cobre seus corpos e ela salta na direção do abajur. Uma luz cegante toma conta
do quarto.
- Onde? pergunta ela,
sentando-se na cama e segurando a coberta na altura dos seios – Não tem ninguém
olhando, imagina!
Ele se deita de bruços e
cobre a cabeça com o travesseiro.
- Você não entende, diz
ele.
- É, não entendo. Ali tem
uma parede, aqui uma porta, ali uma janela. Tudo fechado. Quem estaria olhando?
Ele retira o travesseiro
da cabeça, vira-se de barriga para cima, olha pra o teto:
- Sempre tem gente
olhando.
Ela o observa com espanto.
Ele prossegue:
- Você não tem a impressão
de que tem sempre gente olhando quando a gente faz sexo?
- Não. O que é isto, um
exibicionismo recalcado?
- Você não entende. Gente,
compreende? Quando você era criança e roubava uma bala no armazém não achava
que alguém estava olhando? Você se escondia para chupar a bala e sentia aquele
olho imenso te vigiando do teto.
- Ah, não! Essa não! Você
leu isso no Sartre e adaptou às tuas neuroses. – e ela emendou, teatral: Deus é
um grande olho que nos observa...
- Pois é. Só que não é
Deus, quer dizer, não é só Deus. É o papai e a mamãe, o padre, o professor, o
psicanalista. O professor de gramática. Já pensou você transando e o professor
de gramática fazendo observações a respeito das colocações do pronome que?
Ela soca a cama:
- Não acredito!
- Você acha que eu pirei?
- Pior. Lembrei de uma
coisa.
- O que? ele se agita.
- Uma vez eu li que uma
relação sexual é alguma coisa que se passa entre, no mínimo, quatro pessoas.
Ele, ela, a mãe dele e o pai dela.
- É pouco, diz ele.
- Você acha mesmo?
- Acho. Ele, ela, dois
pais, duas mães, uma ou duas tias enxeridas...
- A primeira namorada...
- O primeiro namorado...
- Aquela
modelo que faz anúncio de xampu...
- Aquele borracheiro aqui
da esquina...
- Êpa!
Aí já é demais! – ela estrila.
- Sei não. Aquele dia em
que fomos trocar o pneu... Confessa...
- O quê?
- ... que já pensou no
borracheiro...
- E você, já pensou na
vizinha do 72?
Os dois ficam pensativos,
olham para os lados, olham-se.
- É gente pra burro, não
é?
- Nem Freud poderia
suspeitar.
- Não sei como esta cama
agüenta.
- Quer saber? Esquece.
- Isso mesmo.
Desligaram o abajur.
e-mail: robertogomes@criaraedicoes.com.br