Sem medo do livro
digital

Roberto Gomes
Sempre que surge
um novo meio ou uma nova tecnologia, emerge das profundezas humanas o temor de
que mundo anterior seja destroçado. Os anunciadores de catástrofes adoram esses
momentos, adoram anunciar o fim do mundo. Já aconteceu com a fotografia, que
decretaria o fim das artes plásticas, com o cinema, que exterminaria com o
teatro, com a televisão, que acabaria com o cinema. Quando os computadores
chegaram à imagem, houve quem decretasse o fim da escrita. O monitor do micro
seria um buraco negro para a palavra.
Mania antiga.
Quando Gutenberg, em meados do século XV, criou os tipos móveis e revolucionou a
história do livro, também enfrentou resistências. Dizia-se que essa nova arte
de “escrever sem mão e sem penas” tinha algo de sobrenatural e diabólico. Não se
temia o fim do livro anterior, mas a proliferação da nova tecnologia. O livro,
até então caríssimo, deixaria de ser posse exclusiva de alguns nobres e o
populacho passaria a ler, a dar palpites, a discutir idéias e... nunca se sabe onde isso pode parar.
Hoje sabemos
que o computador não exterminou com a palavra. Pelo contrário, faz com que milhões
de usuários escrevam e leiam textos na tela dos micros, seja em e-mails, blogs, sites, jornais e revistas on-line etc. Se muitos
desses textos são toscos ou primários, é bom lembrar que no século XIX só
Flaubert escrevia como Flaubert.
Assim, a palavra
não morreu. Quem matou a charada foi Millôr Fernandes. Diante dos deslumbrados,
que repetiam que uma imagem vale por mil palavras, ele desafiava: diga isso sem
usar palavras. Silêncio geral.
O fato é que a
palavra sobreviveu, assim como a pintura sobreviveu à fotografia, o teatro ao
cinema, o cinema à televisão, a televisão ao computador. E é bom lembrar outro vilão
que assombrou aos puristas: as histórias em quadrinhos. Meus professores costumavam
esbravejar contra elas, que determinariam o fim da literatura e da inteligência,
sendo a fonte da burrice das novas gerações. Deu-se o contrário: as HQs recriaram nosso imaginário e
serviram de mote para novas invenções literárias.
Hoje, o fantasma
da vez se chama e-book. Dia desses lá estava na televisão uma editora de livros
assustada com o fantasma do livro eletrônico. Dizia ela que o e-book seria
frio, não teria graça alguma, jamais poderia substituir o livro impresso em
papel. Ao seu lado, um sujeito ligado à informática fazia argumentação
contrária: o e-book não usaria papel e, portanto, não derrubaria árvores, podendo
ser levado no bolso carregado com uma centena de títulos.
Acho que os
dois erram, pois supõem que o e-book substituirá o livro impresso. Inúmeros
tipos de livros jamais poderão ser editados numa telinha de 14 por 24
centímetros. Por outro lado, o e-book poderá evitar a derrubada de árvores, o
que seria bom, mas não nos iludamos, pois, ao surgir o computador, também foi
dito que se gastaria menos papel. O que aconteceu, com as impressoras
conectadas aos micros, foi o contrário.
A questão é
outra. Os editores temem não o fim do livro impresso, mas o fim de sua
indústria, que terá que ser repensada. Temem que sumam – como aconteceu com a indústria
fonográfica – os seus lucros. E o povo da informática faz de conta que o e-book
não tem problemas, tais como telas cansativas e com má resolução, a questão dos
direitos de autor, das traduções etc.
Lembro que já
ouve outro fantasma nessa história, o livro de bolso. Quando foi lançado,
decretou-se que o livro tradicional morreria. Não morreu. Hoje convivem edições
de bolso e em outros formatos. No futuro, livros impressos e e-books deverão conviver, como o cinema com o teatro etc. etc. Atendem a usuários, a situações e a objetivos diferentes.
O e-book tem
uma desvantagem. Nele se perde o contato físico com o papel, a tinta, o ato
físico de virar as páginas. E não sentiremos o cheiro gostoso de um livro novo,
que era por onde Hélio Pelegrino dizia começar a crítica literária. Mas, tem uma
vantagem: a ausência de fungos em edições fac-similares,
que poderemos ler tal como foram originalmente impressas. Os alérgicos – estou
entre eles – agradecem comovidos. E me fascina a idéia de andar com uma
biblioteca no bolso.
Enfim, todos
sobreviverão. O pensamento catastrófico perderá mais essa.
e-mail: roberto.o.gomes@gmail.com