O Samba do Gerúndio Doido
Roberto Gomes
A recepcionista do
dentista me atacou ao telefone, sem piedade:
- O senhor está sendo marcado
para estar sendo atendido na sexta, mas, como o doutor vai estar fazendo uma
cirurgia, ele está perguntando se o senhor poderia estar vindo na quarta. É que
na quinta vamos estar fechados porque estará sendo feriado.
Interrompi:
- Calma, minha filha.
Chega de gerúndio! Vou na quarta.
Ela reclamou com o dentista,
furiosa comigo, ofendida com aquilo de gerúndio. Algo a ver com sua genitora?
perguntou.
É mais uma militante do
atual massacre à língua portuguesa.
Os leitores já notaram que
de uns tempos para cá todos “constroem”? Viraram engenheiros. Acabo de ler num
jornal a declaração de um político: “ajudei a construir este projeto”. Andam
construindo idéias, ações, intervenções, leis. Pelo resultado, nada entendem de
cálculos e tijolos.
Dia destes bisbilhotei uma
conversa entre professores universitários. Vira e mexe, um deles declarava que
construíra alguma coisa. Um construíra uma ementa para a disciplina de
Sementes. Outro era o construtor de um curso de epistemologia, “construído no
dia a dia com os alunos”.
Aliás, a idéia de
“construção” inclui o mito de que todos colaboram entre si, todos participam –
ou seja, todos constroem. E, quando vão explicar como fizeram tal coisa, eles dizem:
- A gente sentou e
construiu.
Claro. Ninguém mais se
reúne, debate, analisa – a turma senta. Quem debate usa a voz, os gestos, a
palavra – não é o caso de quem senta. Aristóteles, por exemplo, que costumava
dar aulas caminhando, seria um fracasso nos dias que correm. Ele não sentava.
Andava.
Quando eu, sempre
desastrado, sugeri a um grupo – que estava sentado – que poderíamos discutir um
texto de certo autor, um deles me disse:
- Precisamos sentar dia
destes para discutir esta questão.
Eu embatuquei. Já não
estávamos sentados? Não poderia ser agora?
Não. Para sentar-se é
preciso marcar previamente. Como se vê, sentar não se resume ao ato físico –
embora esta postura seja indispensável –, mas trata-se de uma programação, um
projeto, quer dizer... algo que a gente... constrói.
Este uso de sentar é
acompanhado pela mania obstinada de inventar ou abusar de verbos estapafúrdios.
A onda começou com terceirizar. Pegou. Emendou no emprego obsessivo de oportunizar,
dependurou-se no priorizar, o que acabou por disponibilizar a todos a oportunização de evidencializar a
inicialização de uma nova palavração. Contar uma
história virou contação. Não é um retrato na parede,
mas como dói!
Falar nisso, chegará o dia
em que não sentaremos mais. Cadeirizaremos. O cliente
chegará ao dentista e a recepcionista apontará uma cadeira, dizendo:
- Cadeirize,
por favor.
Todos os substantivos
virarão verbos. E os verbos, substantivos. Nadar deixará de existir – aguaremos.
E, aproveitando a tolice do inicializar, serão
criados novos palavrões: começarializar, economizarializar, indicarializar
etc. Nada mais será apagado. Será deletado que, como
se sabe, quer dizer exatamente apagar.
Sem esquecer o
indefectível “como um todo”. Juro que li, em texto de astrônomo brasileiro badalado,
uma frase que falava do “universo como um todo”. Vejam só:
o universo como um todo! Quem imaginaria, não é mesmo? Como um todo! Logo o
universo!
Enfim, chegará o dia em
que um pobre escriba, atordoado com a língua que burocratas e burros
propriamente ditos inventaram, produzirá uma espécie de “Samba do Gerúndio Doido”:
“Eustógio
de Tal, executivo e analista corporativo, estava cadeirizado,
pronto para sentar com vários colaboradores, quando foi obrigado a interromperializar a contação de
uma história, pois tiros estavam sendo dados na rua em frente. Ele descadeirizou súbito, e, como um todo, abriu a porta.
Nossa! exclamou. Teremos que estar adiando a construção de nosso relatório,
obtemperou, pois só poderemos reinicializar a oportunização
proposta após deletarmos nosso susto e priorizarmos
nossa calmalização. E, estando dizendo isto, desmaializou em pleno corredor. Ou seja, chãolizou-se.”
Quero registrar desde já que
esta língua vai estar sendo um saco.