Quem merece?

Roberto Gomes
Uma única coisa
me surpreendeu nessa campanha eleitoral: o candidato Plínio ter ironizado,
durante um debate, que os presidenciáveis ali presentes estavam todos fazendo pose
de bem comportados. Todos bonzinhos.
Não estou
fazendo nenhuma declaração de adesão ao Plínio. Assinalo apenas que ele foi o
único candidato a dizer alguma verdade. E a verdade é sempre aquilo que subverte.
Analisemos a frase dita por ele. A sua força está no desnudamento que realiza
dos candidatos, dos debates e dessa campanha cansativa e inútil que assistimos entre
bocejos de tédio.
Todos
sabemos que os
políticos se tornaram marionetes nas mãos de marqueteiros. É lamentável a
situação em que se encontram. Precisam medir cada palavra. Cuidar com as
olheiras, as sobrancelhas, os penteados. Zelar pela gravata, o terno e o
vestidinho. Além da maquiagem e da cirurgia plástica, é preciso acertar o tom
de voz. É preciso fazer pose de educado e não criticar demasiado, pois com isso
se perde votos. E é preciso evitar idéias, pois elas são entendidas por uma pequena
faixa da população. Mais vale urrar frases desconexas em palanques, enfiar bonés
na cabeça, comer carne de bode, se fazer de amigão do povo. Nada de análises
sobre problemas sociais e econômicos – os eleitores podem desligar a televisão.
E, havendo alguma coisa unânime no ar, jamais criticá-la. Se, como dizia Nelson
Rodrigues, a unanimidade é burra, sejamos burros. Fazer ares de imparcial, de
criterioso, de aberto ao diálogo. Tudo – idéias, projetos, programas, alianças,
a história de cada um – deve ser colocado no mesmo caldeirão onde se cozinha
uma mistura insossa e disforme. Dizer sim a tudo que possa pescar algum voto.
Ao governo que sai. Às pesquisas que rolam. Àquilo que dizem que a maioria
pensa. Destacar o positivo, ter horror ao negativo. Não colocar o dedo na
ferida – o dedo ficará sujo. Não apontar as brechas por onde se esgotam as
riquezas do país, os becos nos quais apodrece a miséria nacional. Não mostrar onde
não estudam os jovens, onde não se curam os doentes, onde não são protegidos os
velhos, onde não se vence a doença e se vive em meio à imundície dos esgotos a
céu aberto. Onde se vive à custa de trocados que dão ingresso a um vasto curral
eleitoral. Onde se vive no lixo, na ignorância, sobretudo na mediocridade boçal
dos que julgam que chegaram ao paraíso porque compraram um carro velho em
setenta prestações mensais. Não discutir o que significa ser a quinta economia
do mundo ou supostamente estar paga a dívida externa.
Não causar
atritos. Quanto a isso que chamam de reforma agrária, todos são favoráveis,
inclusive o governo atual, que não a fez. A reforma política, também: são todos
favoráveis. A tributária? Ora, até correm projetos pelo congresso, como é
sabido. De resto, são todos ecológicos. Rende votinhos. Pisar em ovos. Andar no
fio da navalha.
Por exemplo:
alguém viu quebrar o pau sobre a transposição do rio São Francisco? Nenúncaras.
Revirar o poço da impunidade e da corrupção? Jamais. É preciso alardear – sendo
oposição ou governo, já que a unanimidade é imbatível – que o país vive um
momento paradisíaco rumo ao futuro apontado por aquele asfalto perfeito que
aparece no filme publicitário cheio de chavões noveleiros. A eleição se
desenvolve apenas no plano das imagens. É um jogo de espelhos. Parecer é mais
eficiente do que ser. É isso que medem as pesquisas: impressões, imagens.
Tantos por cento vão votar nesse e tantos por cento naquele. Por quais motivos
e com que grau de informação não importa, nem importa quem são os que votam
assim ou assado. As pesquisas, aliás, medem a desinformação e a concordância
bovina.
Ora, política de
verdade se faz com confronto, ainda que não com agressão. Política se deve
fazer com definições e não com palavreado complacente que nada postula.
Política tem que colocar uns de um lado e outros de outro.
Ou, parodiando o
poeta Manuel Bandeira: “todo o resto será contabilidade tabela de co-senos
secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar” aos eleitores. O que estamos assistindo é uma
pantomima deprimente. Todos querendo nos tapear como se fôssemos um bando de idiotas.
Ou seremos um bando de idiotas? Nesse caso, os marqueteiros estão cobertos de razão.
e-mail: roberto.o.gomes@gmail.com