Lições de Juan Domingo
Perón

Roberto Gomes
Leon Pomer,
o historiador argentino, autor de A guerra do Paraguai, era meu vizinho
num prédio nas proximidades da PUC de São Paulo, ali por volta de 1980. Fizemos
amizade, conversávamos muito, chegamos a viajar juntos.
Um dia, sabendo que eu tinha um gravador em casa, me apareceu com uma coleção
de tangos gravados em fitas cassetes. As gravações eram péssimas, mas foram
feitas para que ele, exilado político, pudesse levar no bolso uma memória de
seu país. Madrugada adentro escutamos aquela choradeira argentina,
com canções sobre mulheres infiéis, mães entristecidas pelos filhos ingratos e
homens inconformados com os cornos que portavam na testa. Leon, emocionado,
enxugava volumosas lágrimas portenhas. Sua mulher, Concepción,
levava a coisa menos a sério, mas o acompanhava no sofrimento tangueiro. Eu e Iria, minha mulher, quase nos jogamos pela
janela diante de tamanho sofrimento.
Mas não era sobre esta
faceta de Leon que eu queria falar. Lembrei dele por conta de um episódio que
me contou a respeito de Juan Domingo Perón, presidente da Argentina de
1946 a 1955 e de 1973 a 1974, e que
ilustra um dos usos que os políticos fazem da palavra. Disse-me ele que Perón,
num de seus discursos, falava de coisas complicadas, que envolviam a questão
econômica, quando, diante da multidão, ficou subitamente em silêncio e apontou
com um gesto um jovem que estava dependurado num galho de uma árvore.
Diante de milhares de
pessoas perplexas, Perón começou uma conversa de pai para filho com o jovem.
Algo como:
- Escute aqui, meu jovem.
Não vê que está se arriscando a cair desta árvore? Você pode se machucar,
quebrar uma perna, quebrar a cabeça. Pode despencar em cima de alguém.
A multidão virou-se na
direção do jovem e Perón, com gestos que abrangiam a praça, arrematou:
- Já pensou como sua mãe
irá sofrer caso você se machuque? Desça já daí, por favor.
O jovem desceu de imediato
da árvore e a multidão foi ao delírio.
Sabemos que políticos usam
as palavras como bem entendem. Não são nisso diferentes dos demais seres
humanos, embora o uso que fazem das palavras tenha um caráter específico. No
caso, Perón rompeu o grande discurso a respeito de coisas complicadas, introduzindo
nele preocupações de pai, de amigo, e, argumento definitivo, incluiu a mãe do
jovem na história, o que, para um argentino, é fatal.
Pois esta lembrança me
ocorre por conta do que tenho ouvido de políticos brasileiros. Que eles
manipulem as palavras, que exerçam a arte da dissimulação, não os faz diferentes
dos demais mortais. Mas tenho notado que há um tom monocórdio nas frases de
políticos nacionais.
Não conseguem sair da
atitude defensiva, dos argumentos recheados ora de linguagem jurídica – defendendo-se
de injustas acusações, é claro – ora rosnando que o assunto não é com eles, ora
desfiando estatísticas. Além disso, os políticos brasileiros são todos
valentões. Falam grosso, mostram veias rotundas no pescoço, falam aos berros, mesmo
na entrega de prêmios para redações escolares sobre o dia da árvore.
Há quem se preocupe com as
palavras grosseiras que eventualmente usam, há quem aponte as metáforas pobres
a que recorrem e, por fim, os que catam supostos erros gramaticais em suas declarações.
Nada disso me fere tanto quanto a ausência de humor, de verdadeira habilidade
política, de capacidade de transformar um evento qualquer (um jovem dependurado
numa árvore) em ocasião de reverter um quadro, mostrar um ângulo inusitado,
propor uma visão inteligente ou mesmo malandra de uma situação.
É conhecido o episódio em
que o senador Pinheiro Machado, saindo da redação do jornal carioca O País,
diante da multidão que ameaçava linchá-lo, recomendou ao motorista de seu
carro: “Não tão depressa que pareça covardia e nem tão devagar que pareça provocação.”
Espírito. Inteligência.
Senso de humor mesmo diante de situações tensas e difíceis. Na mitologia
política brasileira, de Getúlio Vargas a Tancredo Neves, temos inúmeros
exemplos de tiradas deste tipo. Infelizmente, outra escola, que tem como
patrono o general Figueiredo, passando por Collor e FHC, chegando aos atuais
ocupantes dos chamados três poderes, não vai além dos despistes toscos, da
prepotência, da boçalidade, quando não dos chutes nas canelas.
O Brasil, no mínimo,
perdeu a graça. Estou certo de que Leon Pomer está
chorando volumosas lágrimas portenhas diante deste triste espetáculo.
e-mail: robertogomes@criaredicoes.com.br