Naquelles annos aquillo alli
era u’a photographia.

Roberto Gomes
Temos mais uma reforma
ortográfica pela proa. O que dará muita dor de cabeça aos escrevinhadores em
geral e a este pobre cronista em particular.
Os primeiros livros que li
eram da biblioteca de meu pai, o que incluía livros vindos da biblioteca de um
primo distante, que viveu no início do século XX, além daqueles que eu retirava
da biblioteca pública de Blumenau. Todos obedeciam a velhas convenções
ortográficas.
Sem boas livrarias na
cidade e não tendo dinheiro para comprar livros novos, eu lia edições
publicadas havia meio século. No cardápio, Machado de Assis nas edições Garnier, um vício do qual não me livrei até hoje. Continuo
convencido de que Machado deve ser lido sempre nas edições Garnier;
o leitor tomaria um vinho francês numa caneca de porcelana?
Isso significa que li os
primeiros livros – os mais marcantes – em edições feitas segundo uma convenção
ortográfica anterior àquela na qual fui alfabetizado. Nelas havia uma profusão
de “seccado, despeza, á
socapa, aquillo, affluiu,
caracteres, naquelle, annos,
edade, estupido, collocal-os, d’ahi, fel-o, bellas, pharmacias, cousas, vae, alli, creação,
sahires, photographia, defuncto, rheumatismo, affecções, mez”. Foi o meu
primeiro conflito com a ortografia. Habitava dois mundos: o dos livros
escolares e, um outro, velho de uns cinqüenta anos.
Naquele momento estava
em vigor a ortografia fixada em 1943. Em 1971, novas mudanças – despencaram
alguns acentos, pelo que lembro. O
resultado é que fiquei ainda mais confuso. Coexistiam em minha pobre cabeça
convenções que vinham de 1911 e alcançavam 1971. Com minha notória capacidade de
misturar alhos com bugalhos, para usar uma expressão
ainda mais antiga, acabei criando confusões imensas.
Vem daí minha hesitação
quando devo grafar certas palavras. Misturei várias ortografias e fico sofrendo
para me lembrar se despesa é com z ou com s. A ortografia me parece um terreno
movediço que flutua segundo a arbitrariedade das leis dos homens. Caiu ou não
aquele acento? É diferencial? Havia uma implicância suspeita com relação ao
acento diferencial. E aquele acento agudo que, em alguns casos, virava oblíquo?
Por isso acabei fã de palavras proparoxítonas – levam acento e acabou-se. Que
não se mexa nelas!
Agora, esse tal acordo
ortográfico dos países lusófonos, sobre o qual eu e mais uns cento e oitenta
milhões de brasileiros não fomos consultados. E justo quando o corretor
ortográfico do Word me passava a sensação de ter
afinal chegado ao paraíso.
Mas há equívocos. Em
primeiro lugar, essa reforma não implica qualquer mudança na “língua
portuguesa”, conforme ouvi um membro da Academia Brasileira de Letras dizer. Mudam
apenas certas convenções ortográficas, não mais.
Não sei também se isso
contribui realmente para “unificar” a língua que praticamos. Estou relendo no
momento Os Maias, do Eça. Há nesse romance inúmeras frases incompreensíveis
para um brasileiro. Não por razões ortográficas. O significado das palavras,
seu desuso, o fato de designarem objetos que sumiram – o que o leitor acha que era
uma tipóia? Além disso, a ordem das palavras, o modo de arranjá-las, o uso de pronomes,
certos tempos verbais, certas expressões, tudo isso causa ao leitor brasileiro algum
desconforto.
Nada disso está ligado à ortografia.
Então, me parece que o alarde em torno desta reforma é falso. Desconfio que
possa ser mais uma bobagem lusófona: colocar o secundário no lugar do principal.
Manoel Carlos Karam, meu querido amigo, me dizia uma coisa ótima: o que o
incomodava era o prejuízo gráfico. Por exemplo: estava acostumado ao trema, um
grafismo indissociável de certas palavras a seu ver. Por isso, a tal reforma anunciada
causava nele um grande desgosto. Ademais, o trema lhe parecia belíssimo.
Um dia, faz tempo, contei
meus sofrimentos ao professor Eurico Back, enquanto
tomávamos cafezinho numa antiga saleta da Universidade Católica. Ele me ouviu
atentamente, com um olhar divertido, e me aconselhou, com a serenidade dos
sábios:
- Não dê a menor
importância a essas coisas. Quando ficar em dúvida, abra um dicionário e
pronto.
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