O peixinho no aquário

Roberto Gomes
O filho
telefonou.
- Será que o
senhor pode me fazer um favor?
Como recusar?
Nunca recusava nada.
- Posso.
- Nós vamos
viajar e a Luiza ganhou um peixe. Posso deixar ele aí?
Luiza, a neta. Jamais
recusaria.
- Pode, claro. Mas... algum problema
com a geladeira?
- Que
geladeira, pai?
- Bom, o
peixe... pensei...
- Pensou
errado. É um peixinho. Peixe de aquário.
- Pode trazer.
Já era noite
quando o peixinho chegou. Aquário pequeno, umas pedrinhas coloridas no fundo,
um tubo, um fio de luz.
- Me explica,
pediu ao filho.
- É só ligar na
luz. Mais nada.
- E a comida?
- Está aqui – mostrou
um pacotinho amarelo – É só colocar cinco grãos a cada doze horas.
O filho saiu às
pressas. Lá ficou ele com o encargo de cuidar do peixinho. Era preciso ligar na
luz, senão morreria de frio. Colocou uma pequena mesa perto da janela, junto a
uma tomada, e, na hora de ligar, hesitou. Nunca fizera aquilo na vida. E se
ligasse errado? Fritaria o peixinho. Olhou para o peixinho, que era lindamente
azul, com vastas nadadeiras em tons avermelhados e roxos. Um peixinho exuberante
que talvez fosse ser eletrocutado.
Bobagem. Ligou.
Nada aconteceu. Melhor assim. Olhou para o tubo e viu que um filete vermelho
aparecera – era um termômetro e tudo parecia em ordem. Mas, por via das
dúvidas, ficou por perto, foi olhar várias vezes. O peixinho nadava de lá para
cá, não estava em processo de fritura. Aliviado, foi cuidar de suas coisas.
Antes de
deitar, veio ver se estava tudo bem. A sala escura, não achou o peixinho.
Fritou, pensou. Morreu. Acendeu a luz. Lá estava ele, aparentemente apoiado
numa imitação de algas, quase deitado nas pedrinhas do fundo. Aproximou-se e o
peixinho disparou para o outro canto, assustado.
Então, peixinho
também dorme. Deve ser. Quieto no fundo do aquário, ele dormia. Que mais
poderia fazer um peixinho dentro daquele espaço mínimo, repetindo obstinado o
mesmo trajeto de um lado para outro?
Conferiu a
temperatura e também ele foi dormir.
No dia seguinte,
a primeira coisa que fez foi olhar o peixinho. Lá estava ele se exibindo. Cutucou
o vidro e o peixinho veio sondar o seu dedo e depois se afastou. Não apenas se afastou
– deu uma rabeada volumosa, feito um golpe de dança, e foi ao outro lado, de
onde ficou a examinar seu nariz quase grudado no aquário.
A comida, pensou. Deve estar com fome, por isso me olha desse jeito.
Peixe não é bobo, quer comer. Pegou o pacote, abriu, e só então viu que os tais
grãos eram umas coisinhas de nada. Cinco? Será que escutara bem? Colocou cinco
daqueles grãos na palma da mão e foi perguntar à mulher: É só isso mesmo? Cinco,
disse ela. Mas são tão pequenos. Ela explicou: é um peixinho.
Voltou ao
aquário e colocou os cinco grãos na água. O peixinho não lhes deu atenção. Tem
medo de mim, pensou. Afastou-se, ficou olhando de longe, mas, como sentia fome,
ele é que foi tomar café. Quando voltou, o peixinho ia e vinha com jeito de
quem estava com a barriga cheia. Sorriu. Não era tão complicado aquilo de
cuidar de peixinho.
Passou os dias
seguintes entre cuidados e preocupações com o novo amigo. Não se sentiria só?
Como suportava aquele espaço mínimo onde nadava aparentemente feliz? Colocava a
comida a cada doze horas e, no resto do tempo, tentava não pensar nos dramas do
peixinho.
O filho veio buscar
o peixinho cinco dias depois. Já eram amigos íntimos, preferiu se despedir à
distância, nada de sentimentalismos. Sozinho em casa, sentou-se na poltrona,
abriu o jornal, mas não conseguiu ler. Dirigiu um olhar minucioso para as
paredes da sala, para o teto, o chão de madeira. Sentiu-se num aquário. Pensou:
se não colocarem água, tudo bem.
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