O
olhar angelical do terror

Roberto Gomes
Após ataques terroristas, a exemplo desse ocorrido na
Noruega, somos massacrados por imagens da tragédia. Imagens chocantes,
destruição e morte, o horror em praça pública. Nesse caso, temos ainda os
corpos de meninos e meninas assassinados na ilha de Utoya.
O que justificaria a matança de meninos e meninas? Como
entender que alguém possa ferir de morte quem apenas passava por uma das ruas
de Oslo? Que mal cometeram esses meninos e meninas? A quem feriram essas
pessoas?
Diante de tamanha insanidade, no entanto, há uma imagem que
me parece a mais aterradora de todas. Nela não há sangue, não há expressão de
desespero ou dor, não há sofrimento.
Esse que agora sabemos se chamar Anders Behring
Breivik é visto na janela de um carro de polícia. Ao
contrário do transporte de presos no Brasil, ele não está socado no porta-malas
de uma viatura. Está bem acomodado, ao lado de um policial, trajando uma
espécie de camisa de cor laranja ou vermelha, que lembra um colete.
Seu rosto é sereno, cheio de claridade. Tem um porte
orgulhoso. Não chega a ser hostil, mas é desafiador. Seu olhar é firme, quase
doce, pacificado. Olhos azuis dirigidos a um ponto indefinido, mas que miram a
todos nós, que vemos a foto. Ele nos olha e nos despreza. Está completamente
absorto pelo grande momento que vive. Afinal chegou às páginas de todos os
jornais, às telas de todas as televisões. É um fenômeno global. Autor de um
grande feito, percebe-se que está feliz e não
denuncia, no rosto redondo e quase infantil, qualquer culpa, ressentimento ou
dor. É um homem realizado.
Essa é a foto mais terrível de todas que a mídia fez
circular.
Os atos terroristas – venham de onde vierem – são por definição covardes. Produtos de mentes insanas, nos deixam face a face com o incompreensível, aquilo
diante do que falecem todos os nossos argumentos, todas as nossas convicções e
esperanças. O que dizer ou pensar diante de um homem feliz pela execução de
dezenas de inocentes?
Nada.
Olho para a foto e vejo ali um homem convicto. Um homem que
tem uma certeza absoluta de que fez o que deveria ter sido feito. Eis o terror.
O sangue e as mortes são mero acidente, pura contabilidade. A destruição, não
apenas de vidas, mas de esperanças, é coisa secundária. O que esses olhos azuis
e esse sorriso irônico nos dizem é que estamos diante de uma criatura superior,
que agiu movido por princípios elevados. Está acima das hesitações nas quais
todos nos movemos. Acima do bem e do mal, além de qualquer julgamento. Aliás,
deseja usar o julgamento como tribuna. Não há crime que tenha cometido.
Essa certeza de representar uma verdade absoluta define a
insanidade. Uma das grandes conquistas da humanidade é a dúvida, a incerteza, a
imprecisão, o não saber. O ser humano começou a pensar assim que descobriu a
dúvida. Se não sei, busco saber. Se duvido, investigo,
refaço meus argumentos, busco novas provas. Das minhas incertezas saem críticas
contra arbitrariedades ou prepotências. Das imprecisões e mesmo defeitos que
vejo em mim, resultam melhoras, avanços, descobertas.
Assim, nada mais aterrorizante do que um homem que não tenha
dúvidas. Nietzsche, com a genialidade desconcertante de sempre, escreveu: “a
certeza enlouquece”. Chesterton deu à questão sua pincelada de ironia e
paradoxo: “o louco é aquele que perdeu tudo, exceto a razão”. O louco está
certo sempre. O louco sempre tem razão.
Eis como nos tornamos reféns de terrorismos de diversos
tipos. Alguns fanáticos tentam se justificar em crenças religiosas delirantes,
em isolamentos tribais, em equívocos raciais. Outros, em limites nacionais,
diferenças de gênero, de comportamento sexual, de escolhas políticas. É o
resultado da negação do outro, aquele que exige que eu duvide de mim e me
coloque em questão. O fanático teme o outro e, no mesmo ato, teme a si mesmo.
E o terror nos brinda com o olhar angelical dos iluminados/