O menino, a menina e a chuva

Roberto
Gomes
O menino e a menina estavam parados
diante da janela.
Ele grudou o nariz na vidraça e disse
que o mundo lá fora estava virando lama. Lá fora? estranhou
a irmã. O mundo é lá fora, insistiu ele. Aqui dentro é a casa.
Já haviam discutido essa questão muitas
vezes, sem chegar a um acordo.
Ele dizia:
- Lá fora é o mundo. Aqui é a casa.
- A casa faz parte do mundo, bobo.
- Não sou bobo! A casa tá no mundo, mas é outra coisa. Lá que é o mundo – e
espetava o dedo na janela.
Ela desistiu. Disse, desconsolada:
- Que chuva chata.
- Muito chata, aceitou ele, para acabar
com a discussão.
- Será que tá
chovendo na cidade toda? ela perguntou.
- Acho que sim, disse ele, percorrendo
com o olhar o céu carregado de nuvens.
- Coisa chata, insistiu
ela.
- Acho que tá
chovendo no mundo todo.
Ela pensou um pouco e disse:
- No mundo todo, não. Tem lugar que não
chove.
Ele pareceu incrédulo:
- Não chove nunca?
- É. A professora mostrou um lugar onde
não chove nunca e lá as casas nem têm telhado.
- Verdade?
- Foi o que ela disse.
O menino olhou para cima e ficou
imaginando como seria um buraco bem ali em cima da cabeça deles.
- Coisa esquisita.
- Divertida, disse ela. A gente olha e
vê o céu e as estrelas. Já pensou num céu grandão cheio de estrelas? A gente
deita na cama e fica olhando as estrelas.
O menino seguiu olhando para cima e,
súbito, viu um buraco imenso que o encheu de medo.
- Credo! fez
ele.
- Que foi?
- Parece que a gente pode cair no
céu...
Ela riu:
- Que bobagem! A gente cai pra baixo,
não pra cima.
Ele ficou um tanto ofendido. Não
gostava de ser chamado de bobo. Disse:
- Eu sei. A gente cai pra baixo. Mas
dá...
- ...um frio na barriga?
- É, um frio na barriga. E se o céu for
um buracão pra sempre?
- Daí a gente viaja pelo céu.
Ela saiu correndo pela sala de braços
abertos. Ele a acompanhou achando que a irmã era mesmo muito maluca. Parecia um
avião.
- Você parece um avião.
- Um passarinho.
- Tá bom, passarinho.
E do que a gente vai brincar?
Os dois voltaram para a janela, como se
brincar exigisse que aquela chuva terminasse de imediato, o sol secasse as
árvores, o solo, a grama, os canteiros, os passarinhos.
- Chove há três dias,
não é?
Ela sorriu:
- Tá chovendo
desde o começo do mês, seu bobo.
Ele reagiu:
- Eu não sou bobo! Já te disse.
- É distraído, tá
bom?
Ele calou-se, aceitando que era
distraído.
- E você é muito espertinha, disse ele.
- Sou mesmo!
E os dois dispararam em nova perseguição
maluca pela casa, aos gritos, até ouvirem a voz da mãe vindo lá da cozinha:
chega de correria!
Voltaram à janela. A chuva aumentava.
- Chato, né?, comentou ela.
- Muito chato, concordou ele.
e-mail: roberto.o.gomes@gmail.com