O menino Antoine e o
Líbano
Roberto Gomes
Nunca estive no Líbano.
Desconfio – e é quase uma
certeza – que jamais irei ao Líbano.
O Líbano fica longe, do
outro lado do mundo, e para chegar lá é preciso atravessar mares, terras, voar
quilômetros intermináveis. Quando examino o mapa- mundi, tenho alguma
dificuldade em encontrar o Líbano. Estará por ali, entre uma
série de países, uns menores, outros maiores, numa colcha de retalhos
geográficos cujo sentido não entendo direito. Nem sei ao certo com que cores os
geógrafos costumam preencher o mapa do Líbano, qual o desenho de sua bandeira,
e tenho dificuldade em imaginar como soa, entre eles, a língua que falam.
Pela geografia e por minha
incurável ignorância, o Líbano é um país distante.
Sei pelos jornais que está
metido numa guerra. Bombas, explosões, mortos, o cenário conhecido. Preciso me
concentrar para descobrir se por lá viceja a mesma guerra de sempre ou se
inventaram outra guerra. Uma guerra nova em folha, quem sabe, tinindo feito
automóvel zero quilômetro. Ou será a velha guerra de sempre? Leio o jornal com
tédio e cuidado, mas não chego a nenhuma conclusão. Trata-se de guerra. Um
prédio desmoronado entorta a página do jornal, que parece se debruçar sobre a
mesa do café da manhã. Um menino morreu, diz a manchete, com o alarde e a
frieza cirúrgica das manchetes. Não é o primeiro a morrer. É o terceiro entre
meninos brasileiros.
Na verdade eu já havia
lido a manchete ao pegar o jornal. Mas fingi não prestar atenção. Liguei a
cafeteira, coloquei o pão sobre a mesa, apanhei uma fruta.
Foi a fruta que me atingiu
em cheio, como um explosivo.
Nesta mesma cozinha na
qual estou tomando meu quieto café da manhã, insatisfeito com este jornal e as
coisas que diz, conversei um dia, longamente, com meu amigo Antônio Medawar.
Ou, como ele preferia, com um traço de galhofa, Antoine El
Medawar.
Olho na direção da pia e o
vejo encostado na quina do fogão, saboreando uma maçã. Já falou, já xingou meio
mundo, já ocupou esta visita que me faz com todos os seus truques. Agora come a
maçã como uma criança come chocolate.
Tem oitenta e tantos anos
e uma vitalidade que parece não caber em seu corpo. Irá morrer dentro de um ano
e meio, mas disto nem eu nem ele sabemos ainda. Neste momento, o que interessa
é a maçã. Ele a come com uma concentração religiosa e só interrompe aquele
momento místico para me dizer que não entende como nós, brasileiros,
conseguimos comer frutas que não estejam geladas.
Não estava reclamando da
maçã que eu lhe dera – era um homem que sabia ser educadíssimo. Estava pensando
em alguma coisa que iria me contar em seguida. Mordeu novamente a maçã e me
disse, com lágrimas nos olhos, que lembrava do Líbano.
Ele era um menino no
Líbano, há quase oitenta anos, talvez um menino de olhos acesos como este da
foto do jornal. O grande prazer daquele menino era, dia cedinho, ir ao pomar e
apanhar uma fruta. Fazia frio, às vezes muito frio – ele apanhava a fruta
gelada, que queimava sua mão, e voltava para casa. Sentado num banquinho de
madeira de três pés – não era nenhuma obra de artesanato, era apenas um banco
com um dos quatro pés quebrado, me explicou, sorrindo – ele se concentrava em
comer a fruta.
Era daquela fruta gelada
que ele lembrava agora.
- Como era bom comer
aquela fruta gelada, me diz ele, olhos fechados, mastigando a maçã.
E, quase oitenta anos
depois, aqui nesta cozinha, ele me olhava com um jeito de menino moleque que
roubou a fruta no quintal do vizinho.
Era o Líbano do meu amigo
Antoine el Medawar. Não voltamos – não sabíamos que
ele iria morrer, é claro – a conversar sobre as frutas geladas que um menino
havia comido e seu delicioso sabor nas madrugadas do Líbano.
Hoje, aqui nesta cozinha
onde ele esteve um dia, olho para o vazio que deixou ali em frente da pia, e
não vejo mais meu amigo libanês, que esgrimia teorias
não apenas a respeito da relação entre o gelo e as frutas, mas sobre todos as
demais aventuras humanas, reais ou imaginadas.
Volto ao jornal e me
espanto com os olhos acesos e intensos na foto do menino que foi morto ontem no
Líbano.
O que este menino poderia
contar a alguém dentro de uns oitenta anos?
Jamais saberemos.
e-mail: robertogomes@criaredicoes.com.br