O estranho adeus aos
inimigos políticos

Roberto Gomes
Há um momento da vida
nacional em que uma das nossas mazelas se mostra com clareza. Refiro-me aos
artigos laudatórios publicados após o falecimento de políticos. É claro que não
julgo que devamos apedrejar mortos ou aproveitar a ausência do desafeto, que já
não pode se defender, para enxovalhá-lo em público. Seria uma covardia. Aos
mortos – e aos vivos, acrescento – devemos respeito e tolerância.
O que me incomoda é outro
componente dos discursos em que homens públicos se despedem de antigos
desafetos. O recente falecimento de Antônio Carlos Magalhães é mais um destes casos,
como já aconteceu quando do falecimento de Tancredo Neves, do general Geisel,
de Miguel Arrais, figuras que tiveram, seja à direita ou à esquerda, seu papel na
vida nacional.
Sobre ACM,
destaco o que escreveram Eduardo Matarazzo Suplicy, Carlos Heitor Cony e Ancelmo Góis. Um político,
um escritor-jornalista e um jornalista. Não faço a nenhum dos três nenhum
reparo pessoal ou profissional – são, na verdade, homens notáveis em suas respectivas
atividades. O equívoco que manifestam é nacional, não pessoal.
Os três, diante do
falecimento de ACM, tomaram o mesmo caminho – aliás
trilhado por outros que não cito aqui; a lista seria enorme – eclético e
conciliador típico de um país como o Brasil, onde as linhas de pensamento, as
definições políticas, as posições filosóficas, ou seja, aquilo que chamamos de
“idéias”, não ocupam lugar algum.
Sempre julguei que nos falta
uma coluna vertebral filosófica mais ereta. Escrevi, há muitos
anos, no livro Crítica da razão tupiniquim, algo que peço licença
para citar: “Ausência de critérios críticos, além de absurda e caótica, não
pode ser confundida com abertura intelectual e menos ainda com ‘esclarecimento’.
É despersonalização intelectual e produz o mais baixo dos produtos culturais: o
ecletismo e seu pragmatismo cego. Essa indiferenciação
intelectual gerou um monstrengo em termos de atitude filosófica: evitar
oposições e dissolvê-las, ao invés de enfrentá-las e resolvê-las.”
Suplicy lamentou que,
estando em Seul, não podesse transmitir pessoalmente
seu pesar aos familiares do senador. Compreensível e humano. Mas, ao longo de
seu artigo, o senador do PT mostra como se deu sua aproximação daquele ACM “marcante” com o qual temia ter “dificuldade de
diálogo”. Assinala que se uniram em torno da questão da “renda básica da
cidadania”, por exemplo. Mas ACM oscilava entre apoiar
e criticar o governo do PT. Seria melhor ouvido, diz
Suplicy, se mantivesse o “afeto” que desenvolvera no início do primeiro mandato
de Lula. E eis o que resolve o grande problema: quando ACM
foi hospitalizado, em abril, Lula o visitou no Incor.
Pronto, deu-se a mágica
“afetiva” das terras tupiniquins. Diz Suplicy que a visita fez bem a ACM que, saindo do hospital, visitou Lula em agradecimento.
A partir daí, as relações foram macias, delicadas, “afetivas”.
Tudo pronto para a eclipse do Toninho Malvadeza e a entrada em campo do
Toninho Ternura, que faz sua aparição triunfal em crônica de Carlos Heitor Cony. ACM, hábil sedutor,
aproximou-se de Cony apelando ao sofrimento do
escritor quando da morte de Mila, a setter irlandesa que Cony
imortalizou em páginas comoventes e magistrais. Foi assim que ACM o seduziu para sempre: “depois disso, mandei minha
isenção às favas, declarei-me suspeito para falar de ACM”,
diz o escritor.
A “ternura” e o “afeto” venceram
novamente.
Já Ancelmo
Góis, além de surfar nas ondas “afetivas”, ilustra
sua coluna com curiosidades e anedotas que exibem o lado ternura de ACM. Cita Gilberto Gil, que entrega o senador a Oxalá, e
Miro Teixeira, que recebeu uma gravata de presente do baiano. ACM é apresentado por Ancelmo como
aquele em quem ninguém mandava.
Repito: não esperava ataques
pessoais a ACM, aproveitando-se de que, morto, ele
não poderia usar de sua língua ferina para se defender. Acho apenas que um
pensamento político, os rumos de um país, o caráter de uma nação, precisam ser discutidos
através de “idéias” e não de “afetos”. O que precisamos saber, de todos os
mortos bem como de todos os vivos, é o que pensam, o que propõem, como vêem a
sociedade, os homens, as relações sociais e políticas, o que acreditam e o que
rejeitam, que idéias têm do poder e como o usam.
Neste adeus “afetivo”, pessoas
ilustres, com justo direito a ter voz e vez na mídia, se dedicam a prolongar a
geléia geral indiferenciada, o bolo fofo recheado de “afetos” que em nada melhora
a mediocridade da vida nacional.
Já as “idéias”... Ora, as
idéias!...
e-mail:
robertogomes@criaredicoes.com.br