O
espírito punitivo das gramatiquices
Roberto
Gomes
Medeiros e Albuquerque, notável jornalista e ensaísta,
escreveu – lá pelos anos 1930 – um belo
livro de memórias chamado Quando eu era
vivo, hoje só encontrável em sebos, onde aliás encontramos
os melhores livros, banidos que foram das metálicas e iluminadíssimas megastores.
Pois conta o autor que certo dia encontrou Machado de Assis
na Rua do Ouvidor e comentou que nomeara um certo
Valentim para lecionar língua portuguesa na Escola Normal que dirigia, pois o
tipo não apenas sabia escrever como sabia ensinar a escrever. Magalhães estava
irritado com os professores de português que faziam descambar o ensino para a
aprendizagem da gramática. Valentim tinha ainda uma vantagem: desconhecia toda
a rebarbativa e complicada tecnologia gramatical.
Machado ouviu, sorriu galhofeiro e perguntou:
- Por que você não me nomeou?
Os dois riram. Na ironia do Bruxo, muita sabedoria.
De fato, quando esbarramos, na mídia brasileira ou nas
salas de aula, com professores gramatiqueiros ou supostos ensinadores
de língua portuguesa, já sabemos o que nos espera: um sujeito que vai colocar um
dedo punitivo diante de nosso nariz.
Há um renomado gramatiqueiro nacional que distribui seu
dedo acusativo com simpatia, de forma jeitosa, numa coluna que circula Brasil
afora. Em suma, o que diz ele? Não é assim, é assado. Não se escreve assim, se
escreve assado. Aqui concorda desse jeito, ali daquele outro. Esse verbo se
conjuga dessa maneira. Esse adjetivo concorda com tal coisa e não tal outra. E
assim vai.
Sempre o dedo acusativo. A caça ao erro. O erro é a grande
ideia força dos gramatiqueiros. Se, por alguma mágica sobrenatural, o erro
sumisse de nossas vidas de pobres usuários da língua portuguesa, esses sujeitos
ficariam desempregados.
Na televisão também há quem fale de língua portuguesa, mas
sempre para descobrir o erro e apontá-lo com obsessão. As conversas muitas
vezes são simpáticas, os exemplos costumam vir de letras da MPB – cada vez
menos de textos de escritores brasileiros – mas o erro está sempre lá, feito um
holofote cego, cobrindo tudo com sua luz sombria.
Até mesmo alguns linguistas, que costumam ser brilhantes
por outras razões, caem na armadilha. Há quem se especialize em apontar não
apenas os erros, mas os erros de quem aponta erros. E haja encontrar
interpretações errôneas das regras gramaticais, concordância equivocadas,
ortografias esquisitas.
Digo tudo isso porque tenho visto, meio por acaso,
programas a respeito de língua em televisões de outros países. E notei uma
coisa curiosa.
Num programa francês, por exemplo, um sujeito com gravata
borboleta e ares de grande felicidade, fala de expressões correntes na língua. Pega
um texto de Molière, cata uma expressão popular, explica o que ela significa, como ela funciona, como foi usada ao longo dos tempos
e por diversos autores, explora seus vários sentidos. Vemos então que tais
expressões mudam de uso ou sentido conforme a época, o local, os autores, o
tipo de texto. E o apresentador conclui sempre com uma espécie de elogio a essa
diversidade.
Nada sobre ortografia, graças a Deus. Nenhum erro apontado.
Fala-se das virtudes da língua francesa.
Noutro programa, dois sujeitos dialogam em torno de um
dicionário. O humor é a tônica. Viram e reviram palavras, riem dos seus
sentidos e ambiguidades, brincam de montar e desmontar expressões linguísticas.
E tiram daí vários ensinamentos preciosos, entre cambalhotas com as palavras.
Sem apontar um só erro. Descobrindo palavras como se fossem
– e são, sabemos disso – algum tipo de brinquedo muito divertido.
Há ainda um programa, na Itália, em que se procura criar
desafios a partir de textos de autores cujos nomes – ou obras, concepções,
períodos literários – devem ser descobertos a partir de seus textos. O público,
formado por jovens estudantes, se diverte e aprende.
Ninguém aponta erros. Nenhum dedo acusa o desastrado
usuário da língua.
Machado de Assis e Medeiros de Albuquerque estavam cobertos de razão.