Um
elefante no meio da rua

Roberto Gomes
O elefante surgiu na esquina às sete horas. Pontual como
sempre. Não costuma se atrasar, exceto às sextas-feiras, quando faz um desvio
para passar na praça onde há uma feira e uma cesta com frutas a sua espera.
Lá vinha ele, como sempre, sem dar qualquer sinal de que me
via. Aliás, tem esse ar ausente dos elefantes. Parece pensar em outra coisa,
ocupado com raciocínios profundos e distantes de nossas ocupações habituais. Os
elefantes são introspectivos.
Ali no meio da rua, ultrapassado por um ônibus apressado e
um menino numa bicicleta, ele não se abala. Lerdo e pesado, segue
nas mesmas passadas sonolentas. Olha as casas, parece examinar as calçadas, vez
por outra para e remexe o chão com as patas enormes.
Como de costume, espero junto ao meio fio.
Confesso que às vezes me irrita esperar por ele, demorado e
calmo para minha aflição. No entanto, lá vem ele, a quatro quadras de
distância, o que aumenta o tempo de espera. Já pensei em fazer algo que possa
acelerar seu passo. Talvez acenar, gritar, mas desisti. A agonia é minha, não
dele. Melhor que chegue lentamente, balançando o corpo de um lado para outro, dando
pernadas que parecem chutes casuais no ar, assumidamente preguiçoso.
Melhor assim, vou pensando, agora que caminhamos juntos. Mantenho
certa distância, uns seis ou sete metros, e me coloco quase no meio da rua enquanto
ele prefere andar a poucos centímetros da calçada. Minha distância, explico, é
estratégica. Trata-se do melhor ângulo para observá-lo e a garantia de que não
serei atingido caso ele resolva fazer alguma obra inconveniente.
Essa é uma das razões que colocam em polvorosa algumas
senhoras aqui do bairro que, além de cuidarem da própria casa, se dedicam a
cuidar de tudo que se passa na rua, seja um carro barulhento, um cão vadio ou,
como é o caso, um elefante. Algumas delas aguardam a passagem do paquiderme
empunhando uma pá e uma enxada. Quando ele, desprezando seus cuidados, avança sem
sujar a rua, elas vibram e gritam umas para as outras:
- Escapamos!
E riem. Acho até que elas gostam do elefante, mas não
conseguem dizer isso a ele, que as olha com seu olhar sofrido.
Além dessas mulheres, há um homem gorducho, de bigodes
sorridentes, que nos espera sentado num banquinho colocado na calçada. Cruza os
braços em volta da pança enorme e repete o mesmo refrão ao passarmos:
- Vejam só aquilo! Vejam só! Lá vão os dois!
Na verdade, o elefante só reage assustado quando surge uma
senhora que mora a duas quadras da praça. No primeiro dia em que a vi, levei um
susto enorme, pois ela batia com um martelo numa enorme panela, gritando:
- Xô! Xô! Xô!
No dia seguinte, quando ela voltou com a panela e o martelo,
perguntei por qual razão espantava o pobre elefante. Ela respondeu não querer
que o animal – é como se referiu a ele – subisse na calçada, pois ela afundaria
sob o seu peso descomunal.
Examinei a calçada e vi que não estava danificada.
Perguntei:
- Mas ele já invadiu a sua calçada?
- Não.
- Então, por que o espanta?
Ela não perdeu a pose:
- Nunca se sabe o que um bicho desses pode fazer, não é
mesmo?
O elefante virou-se na minha direção e trocamos um olhar
cúmplice. Juro que ele sorriu. O que jamais confessarei para o pessoal aqui do
bairro. Pensariam que fiquei biruta.
Outra meia hora de caminhada e nos separamos, a duas
quadras de minha casa.
Ele faz uma pequena parada na esquina, balança a cabeça e
me olha de forma quase dolorosa, despedindo-se. Aceno para ele e me afasto. Até
a próxima, digo, mas é certo que ele já não me escuta. Voltou a mergulhar em
suas lembranças imemoriais.