O Diabo mora na tipografia

Roberto Gomes
Revisar textos
é tarefa inglória. (Editar também, mas isto fica para outra ocasião.) Por mais
neuróticos compulsivos que sejam os revisores, já sabemos de antemão que algo
escapará, algum descuido mais ou menos grave ficará para sempre impresso numa página
tantas vezes vista e revista. O Fernando Sabino fala disto numa crônica antiga,
lembrando um ditado que circula desde Gutenberg pelas oficinas gráficas e que
ainda hoje se insinua nos ambientes informatizados: “o diabo mora na
tipografia”.
Desde que me
meti nisto de editar livros, sou perseguido, no entanto, por uma sina particular.
O livro pronto, chegado da gráfica, é retirado do pacote. É um prazer
insuperável. O cheiro de livro recém-saído da gráfica só é comparável ao do pão
recém-saído do forno. Uma delícia. Depois de conferir capa, contracapa, folhear
rapidamente as páginas, de colocar o livro sobre uma mesa ou numa prateleira
para ver o efeito, chega o momento crucial: abrir o livro.
É quando entro
em pânico. A sina que me persegue é a seguinte: sei que vou abrir aquele livro
exatamente numa página que contém um erro, não raro o único erro de todo o
livro. Numa editora que dirigi, os funcionários me traziam os livros recém-editados
com o coração aos pulos (coração de revisor é muito sensível, como se sabe). Estavam
convencidos de que eu abriria numa página com algum erro de revisão. E não dava
outra: lá estava a vírgula fora do lugar, o ponto duplicado, o parêntesis que
não foi fechado, o travessão inesperado, o s no lugar de um z. Recentemente, abri
um livro que editei na página que havia um “ehos” no
lugar de um óbvio “ethos”. Como passou despercebido?
Impossível. No entanto, lá está o erro não visto, que
agora nos salta aos olhos como se fosse um holofote. Brilha para todos os
lados, ocupa todo o espaço da mancha impressa, ri de nossos cuidados.
Certa ocasião, eu
lia um livro sobre editoração quando, lá pelas tantas, o autor dizia que um livro
merece ser editado com máximo cuidado e, portanto, não pode conter nenhum erro.
Fiquei chocado com esta afirmação temerária. Não se deve escrever tal coisa, ao
menos num livro, pensei. Bom, duas páginas adiante, lá estava
o erro: todos os números de página eram impressos em vermelho, menos naquela,
onde saiu em preto. Pronto. O diabo, como sempre, dera uma voltinha pela
tipografia.
É um problema
que merece reflexão. Deve haver, por alguma razão, em algum lugar do cosmos, uma
conspiração das letras, das máquinas, das palavras, quem sabe obra de algum
espírito brincalhão que se mete entre as páginas. Talvez circulem no mundo palavras
em demasia, livros em excesso, páginas redundantes. Os deuses da literatura nos
castigam com estas gafes para que não percamos a humildade.
Já em 1980 eu
andava atormentado por esta triste sina, quando, em São Paulo, percorria
quilométricos corredores de uma Bienal do Livro. Bisbilhota daqui e dali,
folheia livros a cada estante, resolvi parar num canto para examinar uma
montanha de catálogos coletados na caminhada. Mas minha atenção foi despertada
por um sujeito que estava expondo xilogravuras num corredor anexo. Fui bisbilhotar, que é o que mais se faz em Bienais. Era um bom gravurista, chamado Marcelo Soares, munido de chapéu de aba
larga e boa lábia nordestina. Conversamos e, lá pelas tantas, descobri o que me
levara àquele lugar.
Misturada a outras gravuras, encontrei uma intitulada “Lampião
chutando o traseiro do Diabo.” Eis a razão pela qual eu fora à Bienal, pensei.
Lampião desferindo um potente chute na bunda do Diabo
me pareceu uma imagem perfeita para os dramas que enfrentamos ao editar.
Comprei
a gravura, mandei emoldurá-la e até hoje ela está comigo, aqui na parede ao
lado, como uma espécie de santo protetor dos sofrentes
(é sofrentes mesmo, revisor, não corrija)
escrevinhadores e editores e revisores. Com esta xilogravura por perto, me
sinto mais tranqüilo, mas, é claro, não livre de erros. Quando eles acontecem,
vou até a xilogravura e, como devotos de outros santos devem fazer, converso
com Lampião, reclamando não ter sido alertado por este tropeço. Um homem tão
poderoso, digo a ele, capaz de colocar em debandada os macacos da Volante, como
não me protegeu deste ridículo “ehos”?!
Lampião nem me
olha. Limita-se a desferir novo chute na bunda do
Diabo.
Bem, ao menos tenho
como companheiros vários revisores amigos dos quais me apiedo: a Antônia Schwinden, o Renato Bittencourt Gomes, a Silvana Seffrin, e minha mulher, Iria,
que conserta as trapalhadas que digito. Criaturas mais competentes do que eu
nesta tarefa, digna de Sísifo, de cavoucar gafes
impressas. Rezo por eles a meu santo protetor, Virgulino
Ferreira da Silva, o Lampião, já que todos vivemos
aterrorizados com a possibilidade de uma simples vírgula se transformar num
holofote.
e-mail: robertogomes@criaredicoes.com.br