O
dia seguinte

Roberto
Gomes
Aqui na Vila temos três tipos de leitores: os que leem, os que escrevem e os que não leem. Paulinho Ventura é
o maior leitor de todos os viventes, devorador de livros e de papéis, sabedor
de todos os clássicos e contemporâneos. Criou uma biblioteca comunitária só
para ele e vive no quartinho dos fundos, o único não ocupado pela livrarada que
abarrota as outras dependências.
Leitor menos modesto e mais arteiro é Laurinho Telefone,
autor de vários poemas de T.S.Eliot, que costuma ler para amigos e amigas em
telefonemas dados durante a madrugada. Ao acordar os incautos para ler os
poemas, perde amigos, mas conquista novas namoradas.
E há Carlão Borracheiro, que não lê, nunca leu, jamais lerá
coisa alguma. Alimenta, ao contrário, aquele orgulho feroz que só a mais
completa ignorância é capaz de proporcionar. Já tem tanta gente lendo, pergunta
ele, por que vou perder tempo?
Quanto a Sutil Pedroso, não se sabia se era ou não leitor,
pois tem por hábito chegar ao boteco já torrado e macambuzio, resmungar um boa-noite
rude e ocupar a mesa mais afastada, onde fica a beber olhando fixo para a parede
em frente. Tipo indecifrável. Só sai dali carregado por Carlão Borracheiro,
quatro ou cinco horas depois. Assim era Sutil Pedroso.
Até que um dia ele chegou mais cedo e cumprimentou, alto e
bom som:
- Boas noites, senhores.
Laurinho cutucou Paulinho Ventura e disse:
- Andou lendo Machado de Assis.
Os dois caíram na gargalhada e Sutil Pedroso fez que não era com ele. Lá pelas tantas, quando Paulinho lamentou o
tédio atual dos livros publicados – enredos de série de televisão, no máximo,
comentou o erudito – Sutil interferiu na conversa:
- Sabe...
Os dois acompanharam assombrados aquela
torrente de palavras que o ex-mudo disparou:
- ...dia desses li um livro.
Laurinho sussurrou para Paulinho:
- Não te disse?
- Que livro? perguntou Paulinho.
- Livro, ora.
- Podemos saber o título? indagou Laurinho.
- Nem sei.
Laurinho ia perguntar pelo autor, mas calou-se quando viu Sutil
puxar uma cadeira e sentar a seu lado.
- Não sei de nome nem de autor. Livro de história. Mas tem
uma coisa que não me saiu da cabeça. O dia 14 de maio de 1888.
- 13 de maio, corrigiu Laurinho.
- Não, poeta, disse Sutil, como quem atira uma pedra. É 14 de maio mesmo. O dia seguinte. Já imaginou aquela turma
toda nas ruas, livre, andando de um lado para outro? Quer comer, cadê comida?
Quer dormir, cadê casa? Cadê emprego e grana? Acho que dava um romance.
O silêncio tomou conta do boteco e mesmo Cego Tião
interrompeu a anotação de um jogo de bicho e deixou dona Martinha esperando.
Estava pasmo. Bem que achou aquele boas noites muito estranho.
Que dera no homem?
- E daí? Paulinho e Laurinho perguntaram em uníssono.
- Só isso. – e Sutil acrescentou o que lhe veio à cabeça:
Tem outra coisa...
- O que? – foi o Cego Tião quem perguntou, já ao lado da
mesa.
- A Domitila. Sacam a Domitila? perguntou
Sutil.
- Sacamos – responderam os três.
- Tá no começo do livro. Pois perto dessa Domitila marquesa
de Santos, o mensalão é pinto. Perto dela a distribuição de cargos e verbas de
nossos dias é fichinha.
Laurinho e Paulinho se olharam, mudos. O cego voltou ao
balcão para completar o jogo de dona Martinha, que já tamborilava sobre o
balcão. Sutil Pedroso levantou-se e, antes de sair do boteco – pela primeira
vez usando as próprias pernas – colocou o copo sobre a mesa e disse:
- Cês pagam.
E nunca mais abriu a boca no boteco. Voltou ao velho
hábito: chega, pede a primeira dose, bebe olhando para a parede em frente até
ser carregado por Carlão. Volta dois dias depois. Nunca mais disse palavra, nem
um simples boas noites.
e-mail: roberto.o.gomes@gmail.com