O Conde e os otimistas de plantão

Roberto Gomes
Ocorre ser o Brasil um país muito ventoso, dado a mudanças
eólicas e outras de maior monta, como as relativas à autoestima e autoimagem.
Creio que será por essa razão que nos últimos tempos governantes de diversos
calibres e seus respectivos lugares tenentes se esmeram em produzir uma visão
edulcorada do país e de suas maravilhas.
Para parágrafo tão rocambolesco e barroco, devo uma
explicação. Nos últimos dias tenho lembrado de uma
figura curiosa da história literária e política do Brasil, o Conde Afonso
Celso, autor de livro que circulou pelo país em inúmeras edições e que virou um
chavão – ora citado como galhofa, ora levado a sério: Porque me ufano de meu país.
O Conde era um entusiasta das coisas brasileiras, que
pintava com seus melhores pincéis e as cores mais aprazíveis. Seu “opúsculo”,
como ele se refere a seu livro, arrola os motivos da “superioridade do Brasil”.
O primeiro, a grandeza territorial. Em tamanho, o país ocuparia “uma décima
quinta parte do orbe terrestre”. Quatorze vezes maior do que a França e
trezentas vezes maior do que a Bélgica. “O Brasil é um mundo”, diz ele, e
reconhece apenas uma pequena derrota: “Pará, Goiás, Mato Grosso ultrapassam
qualquer nação europeia, salvante a Rússia”.
Logo a Rússia, que hoje está depois do Brasil, notaria
Afonso Celso, ao menos na composição da sigla BRICs.
Como se vê, o Conde acabaria encontrando modos de se ufanar do país e juntaria
outros motivos: a beleza, as riquezas naturais e a ausência de calamidades.
Claro, nesse último tópico, após 2010 e o início de 2011, o Conde deveria
conceder que já chegamos à era das calamidades das
quais os deuses nos livraram durante séculos. Hoje competimos com o mundo em chuvas,
deslizamentos, secas, inundações, e inauguramos nossos tremores de terra. Mas o
Conde reagiria com outra superioridade de nosso país: “seu procedimento tão
cavalheiroso e digno para com os outros povos”. Por certo citaria nossas
relações com o Morales, o Chaves, o Armadinejad, o Fidel e aquele sujeito da República
Dominicana, o do chapéu. Sem esquecer o imbróglio Cesare
Battisti versus Berlusconi.
Hoje, quando os políticos se reduziram a produtos marqueteiros,
notamos que os governantes costumam ser réplicas do
Conde Afonso Celso. Otimistas, grandiloquentes, amantes das grandezas do
Brasil, furiosamente confiantes no futuro, negadores de defeitos pátrios e dos
patrícios, sobretudo negadores de defeitos de suas administrações. Não raro, ao
ouví-los, fico atônito.
Estarei delirando? O país que pintam é tão, de tal modo maravilhoso, que me
sinto culpado pelos meus pessimismos.
Além da frase vazia segundo a qual “nunca antes nesse país
etc. e tal”, ouço anúncios de que logo seremos a quinta economia do mundo, uma
grande potência mundial. Como sou implicante, vou verificar como anda a China –
o surpreendente modelo socialista apontado como exemplo pelos capitalistas – e
fico pasmo. Exploração do trabalho infantil, remuneração miserável, ausência de
liberdades mínimas, autoritarismo brutal, centralização do poder, decisões
tomadas pelas cúpulas, isolamento cultural, repressão triunfante etc. etc. E
trata-se da segunda economia do mundo.
Então, me pergunto: é isso que queremos?
Os grandiloquentes Condes dos dias atuais nada me
respondem. Gorjeiam que o pré-sal é nosso Rei e que
nada nos faltará, enquanto vejo filas imensas nos hospitais, gente nos
corredores, no chão, casas deslizando de onde não poderia haver casa alguma,
estradas inseguras matando milhares de brasileiros enquanto a propaganda da
indústria automobilística elogia a “potência” dos seus motores. Vejo as escolas
– alunos e professores – abandonados a si mesmos, quando não à sanha de
comerciantes que encontraram na educação um negócio faraônico. As cidades naufragam,
os esgotos emergem à luz do dia, o grande projeto cívico
da maioria é comprar um carro em setenta prestações ou ser aceito em algum
reality show, enquanto políticos e empresários trocam gentilezas, apoios,
favores e percentagens sob o olhar complacente de quem governa. Incontroláveis,
as mais diversas formas de violência e corrupção prosperam, sendo que o coronel
Nascimento, após o sucesso momentâneo, vai se esvanecendo em figura de mera
ficção.
Entre os atuais otimistas e o Conde, prefiro o Conde. Era
ingênuo, mas sincero.
e-mail: roberto.o.gomes@gmail.com