Novos tipos arbitrários

Roberto Gomes
Pode ser implicância
minha. Talvez seja. Tanto que já ameacei desenvolver uma teoria dos tipos
arbitrários em texto publicado há mais de um ano. Repito a dose, em nova clave,
mas no velho piano de sempre.
Por exemplo.
Por que juiz de basquete é
baixinho, barrigudo e careca? As exceções são raridade. Pois me causa agonia
ver aquele baixinho correndo entre os grandões, com
sua pança e sua careca. Não consigo me concentrar no jogo. Quem os seleciona
escolhe pela careca e pela pança? Mas de que servem elas para um juiz de
basquete? E baixinho, por quê?
Outra: está certo que
bailarina precise ser magra. Senão, como dar saltos, simular vôos, jogar-se no
chão sem quebrar os ossos? Como ser erguida pelo parceiro sem que os dois
afundem no palco?
Mas precisavam ser
narigudas? O que, como sempre, me provoca certa agonia. Fico esperando a
bailarina virar de perfil até flagrar o narigão. E, nesse momento, levo um
susto. Pronto, perdi parte do espetáculo.
Estranha adaptação
evolutiva – Darwin concordaria comigo – pois um nariz grandão
em nada colabora para o equilíbrio de quem dança. Pode até desequilibrar. Portanto,
porque esta adaptação da natureza? Mistério. É vantajoso a uma girafa ter o
pescoço comprido, pois assim alcança o alto das árvores, onde estão as folhas mais
tenras. Entendo. Mas para que uma bailarina precisa de nariz grande?
Nisto de magreza, é claro,
as modelos são imbatíveis. Precisariam ser tão magras?
Dizem os especialistas que são escolhidas retas e planas por sujeitos que não
apreciam mulheres, o que pode ser verdade, pois os modelos
masculinos são cheios de formas e curvas, com músculos e volutas
estratégicas.
Mas o que me intriga nas modelos é o andar e a voz. Onde foram descobrir aquele
andar? Me causa aflição. A aflição, no caso, é o temor
de que possam embaralhar as pernas numa passada mal calculada e desabar na
passarela. Temendo pelo pior, acabo não prestando atenção no desfile. Aliás, o
que merece atenção num desfile?
E a voz? Por que as modelos têm voz de travesti? Ou será o contrário? Aquela
afetação molóide, algo entre o tédio e os equívocos de quem está falando uma
língua – qualquer uma – que não domina.
Já entre os políticos há uma
constante assustadora. Talvez característica de políticos brasileiros. Dia
destes acompanhei pela televisão um debate no parlamento inglês. Todos, mesmo enfáticos,
discursavam num tom de voz normal e sem estufar o pescoço. E o pau comendo. Já
os políticos brasileiros, mesmo para anunciar algum índice favorável de
pesquisa da FVG, falam como se o mundo fosse acabar no
minuto seguinte. Sempre à beira de um ataque de nervos.
Eis a questão. Por qual
razão nossos políticos precisam falar aos berros, entrar em combustão,
avermelhar a cara, fazer sobrancelhas tonitruantes? Será falta de convicção no
que dizem? Ou não acreditam em microfones?
Falando nisso, a televisão
está povoada de narradores de futebol que não acreditam em microfones. Berram.
Estão sempre à beira da apoplexia. Além, é claro, de se dedicarem a falar de
tudo, menos do que se passa em campo. Ainda mais agora, com a moda infame do
que eles chamam de “estatísticas”.
E entrevistas com
diretores de cinema? Por que tantas sobrancelhas e bocas? Por que tamanha falta
de sincronia entre som e imagem?
E os executivos? Todos fantasiados
de vendedores de carnês do Sílvio Santos. Por qual razão?
E os tios? Houve época em
que o sujeito era tio apenas dos próprios sobrinhos. Além disso, os tios eram
criaturas algo perigosas, um tanto safados, meio
libertinos, levando não raro uma vida dissoluta. Os tios tinham amantes, eram solteirões
cheios de manias e, não raro, não gostavam de trabalhar. As mocinhas de família
eram advertidas para que tomassem cuidado com os tios, a não ser, é claro, que
quisessem deixar a cidade.
Enfim, só o talento de um
Darwin para explicar.
Senão, me respondam
rápido: já viram flautista gordo? E saxofonista magro?
e-mail: robertogomes@criaredicoes.com.br