Normal,
demasiado normal

Roberto Gomes
O jornalista
Cândido Bisbilhota tocou a campainha e aguardou. Como se o esperasse por detrás
da porta, de imediato surgiu um sujeito bem vestido – terno azul, gravata
amarela – sapatos luminosos, cabelos penteados com rigor geométrico.
- Cândido
Bisbilhota, apresentou-se candidamente o jornalista Bisbilhota.
- Claro, claro,
fez o homem, afetando educação refinada e algum tédio.
- Trata-se da
entrevista...
- Estou
sabendo. Normal...
- Isso mesmo –
Bisbilhota sorriu – Gostaria de entrevistá-lo para saber como é ser um homem
normal. O título que o senhor acaba de receber...
- Absolutamente
normal, diga-se, obtemperou o homem.
Bisbilhota
pensou: só um homem absolutamente normal é capaz de obtemperar.
- A sua
biografia...
- Absolutamente
normal. Fui uma criança que jamais fez xixi na cama depois que meus pais me
explicaram que isso era feio. Nunca reprovei na escola, numa ofendi
professores, jamais cuspi em calçadas. Fiz um curso universitário brilhante e
fiquei rico só com o produto do meu trabalho. Casei com minha primeira
namorada. Virgem. Virgens, aliás. Tanto eu quanto ela, note-se, embora eu seja
de Escorpião...
Nesse ponto o
homem normal colocou a mão sobre os lábios e deu uma risota pudica, deliciado
com a piadinha que havia feito.
Bisbilhota
aproveitou para perguntar:
- E seus
prêmios?
- São muitos,
incontáveis. Vamos nos limitar àqueles que me deram
mais alegria. Adolescente Educado em 1980. Rapaz Normal do Ano de 1982. Marido
Notável em 1996, concedido pela Fundação Don Juan, de Madrid. Ah, tantos
prêmios! Até me encabulo. Agora, esse Homem Normal do Ano 2010.
- O que para o senhor parece normal, imagino.
- Muito normal.
Veja. Uso cinto de segurança até dentro da garagem aqui de casa. Nunca levei multa
no trânsito. Jamais disse um palavrão. Ao falar ou escrever obedeço à norma
culta. Adotei a nova ortografia com ardor e não erro um só hífen! Não conto
anedotas – nesse momento o homem teve um tremelique e coçou com alguma fúria o
olho direito – que sejam politicamente incorretas. Aliás, sou rigorosamente a
favor do politicamente correto. Não fumo, é claro, o que faz com que me sinta
muito superior aos fumantes. O que é normal, convenhamos.
- E sua
fortuna?
- Normal.
Fiquei rico à custa de meu trabalho...
- O senhor já
disse isso. O que, convenhamos, não é muito normal, beliscou Bisbilhota.
- Ocorre que
sou um competente cultivador da arte de influenciar amigos e fazer pessoas...
- Influenciar
pessoas e fazer amigos... – Bisbilhota corrigiu
- Ou isso. A
ordem dos produtos não altera os fatores.
Nesse ponto o
Homem Normal voltou a coçar os olhos com fúria e Bisbilhota, preocupado,
perguntou:
- Está se
sentindo bem?
- Normal, normal. Um pouco confuso, só isso.
Esse prêmio... sabe como é. Mas tenho saúde de ferro.
Física e psicológica. Sou um homem hígido.
- Estou vendo.
- Está mesmo? –
o Homem normal pareceu angustiado – Depois desse prêmio, compreende? Preciso
tomar um cuidado enorme. Não posso me descuidar. Um errinho... lá se vai meu prestígio.
- É muito
difícil ser normal? – perguntou Bisbilhota, o cândido.
- Muito.
Dificílimo! Quase insuportável. O que é normal.
Foi quando o
Homem Normal coçou seus olhos com fúria anormal, até que uma gota de sangue
pingou em sua imaculada gravata amarela.
- Está vendo? disse ele, diante do espanto de Cândido Bisbilhota:
Demasiado normal.
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