No meio da noite

Roberto Gomes
No meio da
noite, o homem acordou aflito, com medo de morrer. Vou morrer, pensou. Mas logo
sorriu. Lembrou-se que era um obstinado hipocondríaco. Achava que estava à
beira da morte desde os dezessete anos, quando descobrira que era mortal. E o
diabo é que, como todo hipocondríaco, tinha uma saúde de ferro.
No entanto, dessa
vez a coisa parecia séria. Sentou-se na cama. Uma dor no lado esquerdo, um
pouco abaixo do ombro. Formigava? Ouvira dizer que ataque de coração costuma
formigar. Bom, não seria um ataque fulminante; se fosse, já estaria morto.
Estava vivo.
Era certo que estava vivo? E se, naquela escuridão, ele estivesse caminhando no
tal corredor que leva à morte? Logo apareceria uma luz, ele caminharia em sua
direção e... Bom, poderia ser uma experiência de quase-morte, disso também
ouvira falar. O sujeito saía do corpo, flutuava no teto do quarto ou acima do
telhado da casa, e, lá do alto, ficava espiando a si mesmo esticado
na cama, a família e os médicos em volta, até que despencava das alturas
e, num golpe seco, retornava ao seu corpo. Escapara por pouco.
E se o túnel
não tivesse fim? Se a luz não aparecesse? Além disso, não estava flutuando.
Grudou o braço
esquerdo junto ao corpo e tentou acender a luz do abajur com a mão direita. Não
alcançou. Evitou fazer força e se levantar. Nunca se sabe. Esticou-se mais um
pouco e conseguiu acionar o interruptor, mas a luz não acendeu. Apertou
novamente. Nada. Olhou em volta, ou seja, percorreu a mais negra escuridão e
viu apenas um minúsculo ponto brilhante onde imaginava estar a
janela. O trinco, pensou. Está refletindo alguma luz,
é isso. Agarrou-se àquele ponto luminoso, segurou o interruptor do abajur com a
mão esquerda e o pressionou com o indicador da mão direita. A luz não acendeu.
Esperou. Quieto
na escuridão, ele e aquele reflexo de luz na direção da janela. Já era alguma
coisa. A dor agora parecia ardida, mas não formigava. A respiração quase se
normalizara, mas ele sentiu uma opressão no peito. Foi quando lembrou que, ao acordar,
sonhava que alguém batera uma porta com violência e ele reclamara:
- Cuidado com
essa porta!
Fora isso. Em
algum lugar, um transformador estourara, ele escutara o barulho – um soco seco
no ar – e acordara assustado. Isso explicaria a queda de luz, que por certo
retornaria logo. Explicaria também porque acordara sobressaltado.
Pronto. Estava
tudo explicado. Ou mais ou menos explicado. O que aquilo tudo tinha a ver com a
dor no peito, no ombro, com o formigamento? Apertou novamente o interruptor.
Nada. Pensou em ir até a janela – poderia se guiar pelo minúsculo reflexo no
trinco – e ver se faltava luz apenas no seu apartamento ou nos edifícios em
volta. Mas desistiu: não seria esforço demasiado para quem estava sofrendo de
um ataque de coração?
Preferiu ficar
quieto. A luz já voltaria. Haveria uma luz.
Friccionou o
braço, o ombro, o peito. A dor, afinal, era pouca, Talvez uma posição errada ao
dormir. Dia desses acordara com o braço direito dormente. Apavorado, discou
para a casa dos pais. Mas, quando o pai atendeu, percebeu que dormira deitado
em cima do braço, fora isso. Desligou o telefone. Coitado do pai, pensou. Aliás, o pai não aprovava que morasse sozinho. Perguntava:
e se te acontece alguma coisa? Ora, não vai acontecer nada, disse ao pai, pois naquela
época ainda não sofria do coração. Mas quem disse que sofria do coração?
Ouviu um som
seco, como se um estilhaço percorresse a casa de um lado a outro. Um tranco. A
luz. Voltou. Estendeu a mão na direção do abajur e, como um náufrago, apertou o
botão. A luz.
Ali estava o
mundo, iluminado. Que bobagem, pensou. Quanta bobagem só porque acordou na mais
absoluta escuridão. Sorriu. A dor e o formigamento sumiram. Ajeitou-se na cama,
puxou as cobertas, mas, ao estender o braço para apagar a luz do abajur, recuou.
Melhor deixar acesa.
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