Metafísica de botequim

Roberto Gomes
O movimento no bar do cego
Tião estava madrugador, ares de fim de festa.
Paulão evitava o sono
empunhando o copo de cerveja de um lado para outro, enquanto conferia os
movimentos de Ernestino Veiga, seu vizinho e parceiro
de conversas e bebedeiras – só se separavam em dia de Atletiba,
quando mantinham distância respeitosa: queriam preservar a amizade.
Ernestino falava sem parar e Paulão contabilizava as etapas
da embriaguez do amigo, as quais conhecia bem. Nos primeiros copos, falava de
futebol, de política, e comentava os dotes de uma nova moradora que descobrira no
bairro. Elogiava algum jogador, amaldiçoava todos os políticos e se derretia
falando das curvas da beldade. Era uma etapa divertida e maliciosa.
Em seguida, vinha a etapa depressiva. Ernestino
reclamava da vida, do trabalho, do patrão, da mulher, dos filhos, dos gatos e
cachorros, seus e da vizinhança. Era o momento chato da conversa. Paulão
tentava desviar o amigo das lamentações sofredoras, mas era impossível. Num dia
o gato mijara no seu chinelo, no outro a mulher o
destratara por chegar bêbado em casa.
- Bêbado, eu, imagine?!
reclamava Ernestino.
Nunca admitia estar
bêbado. Seus desacertos eram culpa do gato mijão, do
filho que não queria estudar, da cunhada que aparecia dia sim dia não para
palpitar na vida deles. Por isso, e não por estar bêbado, reclamava. Esta etapa
durava um longo tempo, dependendo das atribulações do dia, mas não ia além da
meia-noite.
Começava então a terceira
etapa, aquela em que Ernestino acabara de entrar ao esvaziar
mais um copo e lançar um olhar oblíquo na direção do cego Tião, que escutava o noticiário
policial com o ouvido grudado no rádio. Ernestino fez
uma longa pausa, estalou os beiços e fulminou:
- Sabe, Paulão, acho que a
gente vive mais do que imagina.
A terceira etapa, pensou
Paulão, aquela que Ernestino dedicava à metafísica.
- Será? – Paulão estranhou
– A vida é tão curta.
O amigo manifestou
impaciência:
- Não estou falando disso,
cara. A vida é curta, mas... – e Ernestino
debruçou-se na direção de Paulão, como se fosse fazer uma confidência: Já se
deu conta de que antes de nós nascermos o mundo já existia há milhões e milhões
de anos?
Era a metafísica, não havia
dúvidas.
- Sim, fez Paulão, evitando
se comprometer com qualquer comentário.
- Observe bem – Ernestino espalhou com o dedo indicador uma gota de cerveja
que boiava sobre a mesa – Levamos nove meses para nascer, mas, antes disso,
passaram-se milhões e milhões de anos. Quer dizer, nascemos depois de milhões e
milhões de anos mais nove meses. Está me entendendo?
- Estou, disse Paulão, que
não entendia nada.
- Pois bem. Mas, quando
pensamos nisso, vemos que os milhões e milhões de anos passaram num upa!
- Num upa?!
- Um upa,
Paulão. Logo estávamos aqui, crescíamos, arranjávamos confusão no mundo e, mais
assustador, continuamos aqui. Milhões e milhões de anos se passaram num upa! antes de nascermos. Mas nossa vida continua, demora,
vai ficando. Continuamos aqui, conversando, e a Terra segue girando em torno do
Sol. Temos tempo pela frente, podemos até chegar atrasados em casa e
continuaremos aqui, se as nossas mulheres não acabarem com nosso couro, é
claro. Está me entendendo?
Jamais diria que não
estava entendendo.
- Veja só, resmungou Ernestino. O império romano já se foi. Os Maias acabaram.
Pelé já deixou de jogar há mais de trinta anos. E nós continuamos aqui. Que
coisa espantosa! Como a gente demora vivendo! Antes de nascermos foi um upa! no qual aconteceu um montão de coisas: as pirâmides,
Napoleão, a Copa de 70. Depois que nascemos, demora... demora... E – erguendo o
copo antes da talagada de arremate – quando morremos, é um upa!
E tudo acaba. O tempo não existia, o tempo passa a existir, o tempo acaba.
Foi quando cego Tião
largou o rádio e, jogando a conta sobre a mesa, começou a fechar janelas e
portas com algum estrondo e má vontade.
- Vai fechar, decretou o
cego, que não agüentava mais ouvir aquela conversa.
- Upa!
fez Ernestino. Não disse?
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