Memórias de papel jornal

Roberto Gomes
Remexendo uns
guardados em busca de recortes de jornais dos anos 60, abrindo e fechando pastas
que se encontram na mais perfeita bagunça, dei com uma pilha de exemplares do
jornal Correio de Notícias, publicados em junho de 1990. Errei por
trinta anos, mas fiz um acerto com minhas memórias.
Por que guardara
aqueles jornais?
Desmontei a
confusão de páginas e descobri que se tratava do suplemento Jornal da Copa e
do Copo, através do qual o caderno Bom Domingo acompanhou a Copa de
90, de triste memória. A Seleção da Copa era a do Lazaroni, o que já indicava
que algo de errado iria acontecer. A Seleção do Copo era formada pelos diversos
colaboradores: Reinoldo Atem, Edival Perrini, Luiz Geraldo Mazza, Valêncio
Xavier, Francisco Camargo, Carlos Sanches, Ernani Buchmann, José Oliva,
Werneck, Luiz Groff, Key Imaguire, Setto e este cronista – além de outros que
não cito porque só tenho três dos cadernos; considerem-se todos citados. A Seleção
do Copo prometia, como se vê.
Foi quando me
lembrei da editora do Caderno e inventora da Seleção do Copo, a Rosirene
Gemael. Esqueci a Copa e os pernas-de-pau do Lazaroni, entre eles um certo Dunga, de triste memória e que nos dias atuais me
esforço para acreditar que seja treinador da seleção brasileira.
Fiquei me perguntando:
onde andará a Rosirene? Jornalista agitada, editora criativa, texto competente,
a Rosirene aparecia depois de um telefonema – hoje, os jornalistas no máximo
telefonam. Aliás, já nem telefonam: passam e-mail.
Mas, voltemos
ao que importa, no caso, a Rosirene. Ela acendia o primeiro cigarro e enchia o
ambiente de fumaça, colocando no ar uma certa
eletricidade que decorria de sua inquietação, de sua curiosidade, do seu prazer
em fazer jornal.
Por onde
andará?
Quase vinte
anos depois, acendo um cigarro em homenagem a Rosirene. No meio da nuvem cinza,
minha memória – acostumada a vadiagens – vai materializando outras criaturas
que conheci nestas andanças feitas de teclado, papel e tinta.
Lembrei do
Oscar Volpini e da revista Panorama do início dos anos 1980. Ninguém
pode imaginar algo mais surreal do que a revista Panorama daqueles
tempos. Pois o Volpini, o editor, me recebia dando aquele sorriso enorme de
sempre. Nunca parecia estar ocupado, afobado, aflito, estas coisas que
jornalistas costumam cultivar. Sorria, contava causos, ouvia, e eu deixava com
ele a crônica para a última página da revista, enquanto num sofá da sala o
diretor da revista, senhor engravatado e pequenino, um cigarro apagado entre os
dedos, ressonava. No mês seguinte, lá estava eu novamente, crônica em punho, enquanto
o Volpini sorria. Ao lado, no sofá, o diretor ressonava.
Há alguns
meses, encontrei o Volpini num café da Santos Andrade. Continua sorrindo, agora
ainda mais tranqüilo, aposentado. Quanto ao diretor, nem
me atrevi a perguntar.
Outro a quem eu
ia levar meus textos era o Reinaldo Jardim. Final dos anos 1970, ele publicava
um pequeno jornal chamado Pólo Cultural. Lembro apenas de um cubículo ao
fundo de uma gráfica, já não sei onde. Lá estava o Reinaldo, como se fosse um
monge, trajando uma espécie de guarda-pó. Silencioso, concentrado. Eu, que
tinha por aquela figura monástica, um renovador do jornalismo brasileiro, um
respeito que me mantinha de bico calado, entregava a crônica, recebia uns
trocados e sumia até o mês seguinte.
Mergulhado nessas
memórias de papel jornal, lembrei do dia em que conheci o Mazza, o feroz, o
implacável e admirável Luiz Geraldo.
Eu publicara
meu primeiro livro e fui levá-lo no Canal 12 para cavar uma divulgação. O Mazza
me mediu de alto a baixo com sólido ceticismo,
perguntou pelo livro, que passei as suas mãos sem que ele mostrasse muito
entusiasmo; nem o abriu. Comentou que o título era interessante, irônico,
curioso. “Crítica da razão tupiniquim,
resmungou ele. Do que se trata?” Mal costurei uma frase de explicação, ele me brindou, na meia hora seguinte, com uma longa dissertação a
respeito do meu livro e do que ele pensava daquilo que achava que eu havia
escrito. Era o Mazza.
Email: robertogomes@criaredicoes.com.br