Luiz Gonzaga
Jr., o notável moleque

Roberto Gomes
O leitor terá,
tal como esse cronista desatento, certas lembranças que se fixam em sua mente
de uma forma definitiva. Podem desaparecer por uns tempos, mas retornam. São
frases, situações, rostos ou imagens que, por algum motivo, ficam presentes em
nossa memória para sempre. São às vezes coisas que pertencem a uma época, a uma
geração e, outras, apenas a um indivíduo.
Escrevo tudo
isso para dizer que tenho sido perseguido por uma lembrança desse tipo. Assisti
na televisão, que é onde há décadas vemos o que se passa no mundo. Umberto Eco
tem uma observação genial a respeito. Diz ele que situou a ação do romance O nome da Rosa na Idade Média porque dessa
época ele – professor de filosofia medieval – tinha um conhecimento direto,
enquanto que, do século XX, apenas através da televisão.
O ano era 1973.
Luiz Gonzaga Júnior, o Gonzaguinha, até então um cantor e compositor quase
desconhecido, participou do programa Flávio Cavalcanti para apresentar a canção
Comportamento Geral.
O programa tinha
grande audiência e Flávio o usava para decretar que mundo lhe parecia melhor, auxiliado
por um grupo de desfrutáveis que ocupavam o lugar de jurados, ali colocados
como se fossem entendidos em música popular. Nesse dia, do qual lembro muito
bem, se apresentou o Gonzaguinha.
Ele era um tipo
magro – na verdade, magérrimo, pois nunca essa palavra se ajustou tão bem a um
tipo físico – e um crítico feroz da burrice geral da época e da ditadura
militar então em vigor. Acusavam-no de ser mal humorado, chato, impertinente.
Volta e meia alguém procurava falar dele como sendo um sujeito ingrato que
tinha problemas com o pai – o semi-deus
Luiz Gonzaga, músico e sanfoneiro magistral – como se ter problemas com o pai
fosse uma exclusividade dele ou dos então chamados “subversivos”.
Gonzaguinha
cantou Comportamento Geral, canção na
qual arrolava várias das misérias nacionais da época. A letra dizia: “Você
merece, você merece / Tudo vai bem, tudo legal / Cerveja, samba e amanhã, seu
Zé / Se acabarem com o teu Carnaval?”
Os olhares do
histriônico Flávio Cavalcanti faiscavam em fúria. Seus jurados se retorciam
indignados. Era possível prever que algo ia acontecer, até os holofotes do
auditório ameaçavam explodir em chamas.
Terminada a
apresentação, Flávio e seus asseclas massacraram a canção com os piores
adjetivos que conheciam e que podiam colocar no ar: ruim, feia, pessimista,
chata, monótona. Gonzaguinha só ouvia. E a pancadaria continuava: rancoroso, do
contra, pessimista.
Foi quando
Gonzaguinha se aproximou do microfone. Calmo, frio e impessoal como só um magro
consegue ser, olhou para o Flávio, para os membros do júri e, antes de se
retirar tranquilamente, disse:
- Vocês merecem.
Até então um
compositor pouco conhecido, a partir da participação no programa de Flávio
Cavalcanti – que virou notícia em função de sua tirada cirúrgica e cruel – tornou-se
um sucesso de venda e seu compacto, que andava encalhado nas lojas, esgotou em
poucos dias. Não demorou a ser convidado a lançar novo disco.
Como era de se esperar
para a época, o DOPS – órgão governamental dedicado a bisbilhotar a vida de
todo mundo e que decidia o que se podia publicar, gravar, levar ao teatro ou
falar em sala de aula – apressou-se em chamá-lo para depor e passou a censurar
suas músicas, entre elas a própria Comportamento Geral,
que foi proibida. Para
selecionar dezoito músicas para disco seguinte, Gonzaguinha precisou apresentar
setenta e duas à censura. Flávio Cavalcanti e sua
trupe de jurados por certo se sentiram vitoriosos nesse momento, mas para
sempre ficou no ar a tirada apocalíptica e moleque de Gonzaguinha:
- Vocês merecem.
e-mail: roberto.o.gomes@gmail.com