Leia
um livro antes de ou depois de

Roberto Gomes
Confesso que fico perplexo diante do número de títulos
picaretas com os quais as editoras enchem as prateleiras das livrarias. Que
fazer? Pela lógica do mercado, é isso mesmo. Sendo isso, pelo que dizem, o que
a maioria dos leitores quer ler.
Dia desses, alguém me escreveu perguntando como poderia adquirir
um livro de Jamil Snege, autor de textos refinados. Esse
leitor já percorrera todas as livrarias de sua cidade sem nada encontrar – e
não se trata de uma cidade pequena; trata-se de uma capital e de algum porte.
Porte e pose, digamos.
Fui obrigado a explicar a esse sofrido leitor que, em
primeiro lugar, ele procurara o livro no lugar errado. De fato, uma livraria é
hoje o último lugar do mundo para se procurar um livro. Sobretudo livro que não
pertença à tralha dos best-sellers ou não seja obra de alguma celebridade
televisiva.
Onde procurar, então? A primeira opção é óbvia, mas não é
levada em conta pela maioria dos leitores: ir ao site da editora e comprar pela
internet. Simplíssimo. Telefone também serve. Seu livro será entregue em sua
casa. Gostoso e quentinho, como uma pizza.
A segunda opção é cada vez mais usada pelos leitores desesperados:
procurem num sebo. É nos sebos que encontramos os
melhores títulos, tanto os clássicos quanto os editados há mais de um ano. Não
insista com as livrarias. As pobres coitadas já não dão conta de vender livros
de ocasião, de autoajuda, de “espiritualidade”, e você querendo que elas se
ocupem com títulos culturalmente importantes. Como treinar para tanto atendentes
pegos a laço e que jamais abriram um livro? Demais para uma livraria.
Falar em atendentes, dia desses aguardei quatro tentativas
para que um deles digitasse corretamente Eça de Queiroz. Uma sucessão de
equívocos. É Sá de Queiroz. Essa de Queiroz. Éssa de
Queiroz. Sá de Queiroz. Foi quando soletrei. Saiu Eca de Queiroz, mas isso é
culpa da configuração do teclado ou talvez mais uma ironia do escriba português.
Como passei a vida remando contra a maré – e já não me
resta ânimo nem paciência para remar a favor – fico com uma pulga inquietante
atrás da orelha. Por exemplo: há no mercado uma série de livros cujos títulos são
variações a respeito da equação marqueteira seguinte: “1001 coisas a [incógnita]
antes de morrer”.
A variedade é infinita: ler, viajar, conhecer, ver, rever,
citar, esquecer. Imagino que venda horrores – horrores equivalentes às séries dos
vampiros, monstros, extraterrestres, gnomos, espíritos do bem e do mal, com as
quais as prateleiras também andam cheias. Sem falar nas joias do pensamento picaretamente correto que produzem bons conselhos e
mediocridade ao alcance de todos.
Mas a equação marqueteira me deixa perplexo, repito. Na
minha lógica simplista, tudo que qualquer ser humano possa fazer será necessariamente
“antes de morrer”. Ou não?
Pois, remando contra a maré, vou em frente. E depois de
morrer? Pronto, lá fiquei matutando para saber o que farei depois de morrer, eu
que já nem sei o que fazer antes de.
Como aprendi com Oscar Wilde que se deve resistir a tudo,
menos às tentações, concluí que gostaria de ler. Foi ao menos a primeira coisa
que me passou pela cabeça. Portanto, havendo possibilidade de fazer algo após a
morte, se lá no paraíso prometido não houver uma boa biblioteca, tô fora.
Me perdi.
Queria comentar as tais coisas a fazer antes de morrer e me perdi, pois esse
truque marqueteiro me parece aflitivo. Mais ou menos como aquelas mães que
dizem aos filhos: come tudo que está no prato senão dou a comida para o
cachorro. Então, a criança come. Uma competição com o cachorro, ou, para manter
o clima dantesco do tema, com o Cão. Que está ali, na porta que se abre (ou
fecha) para o além.
Então, vamos fazer o que? Ver, viajar, conhecer coisas.
Acumular coisas. Amontoar coisas. Cidades em cartões postais ou em cartões de
memória, onde ficarão sepultadas para sempre. Empanturrar-se de coisas vistas,
ouvidas, faladas, comidas, bebidas. Que coisas? Não importa. Que sejam muitas
coisas, que é uma maneira de projetar para após a morte um mundo igual ao
fantástico mundo do consumo que se viveu antes dela. Tudo vale a pena se a pança
não é pequena, deve ser o lema.