Júlia Maria da Costa

Roberto Gomes
Desde que publiquei o
romance Júlia, tenho participado de palestras, de entrevistas e
conversado muito sobre esta poeta nascida em Paranaguá (1844) e falecida em São
Francisco do Sul (1911), onde viveu a maior parte da vida. Duas reações se
repetem nestes encontros. Alguns querem saber porque me interessei por ela e todos
se tornam, de imediato, fascinados por esta mulher contraditória e mítica, uma
feminista antes do século do feminismo.
A primeira reação se deve
ao esquecimento a que destinamos o passado cultural e suas personagens. Por
isso dedico esse texto ao tema. As pessoas sabem, no máximo, que ela designa
ruas de Curitiba e de Paranaguá, onde seus restos mortais repousam em praça
pública. É o que sempre acontece: poetas tornam-se palavras vazias, das quais nada
se sabe, embora todos façam ares de reverência diante da citação de seus nomes.
Mas é significativo o fascínio
que ela desperta. Num século no qual a mulher ocupava um lugar secundário,
conseguiu se impor como intelectual, como poeta (não excepcional, mas de boa
qualidade) e, não bastasse, como rara figura humana.
Pois meu interesse por ela
decorre disso e do fato de sua memória estar cercada de mitos e imprecisões. Nada
mais atraente para um ficcionista.
Em 1952,
Rosy Pinheiro Lima – que publicou um precioso
livro sobre ela: Vida de Júlia da Costa, 1953 – convidou o historiador
catarinense, Carlos da Costa Pereira, a dar um depoimento sobre a poeta. Ele
fez mais: escreveu um livro: Traços da vida da poetisa Júlia da Costa. Na
carta em que faz o convite, Rosy assinala que sobre
ela há demasiada imprecisão de informações. “Nada há
de exato”, escreve.
De fato. Para alguns, Júlia
seria um modelo de beleza: loira, olhos azuis. Outros dizem que era morena e bela.
Mas há quem a descreva como um tipo banal, embora encantadora. A única foto que
dela restou não permite idealizações, mas não bastou para destruir os mitos.
Foi criticada e elogiada
por fazer coisas reservadas aos homens: escrever em jornais, defender idéias próprias,
ser independente. E, ousadia máxima, pintava os cabelos, o que, segundo alguns,
só as prostitutas faziam à época. Há um ponto de consenso: teria sido muito
inteligente. Mas, numa frase lapidar, Júlia lembrou com ironia: “a inteligência
é, de todos os fardos, o mais pesado para uma mulher”. Ela sabia do que falava.
Outro tema é a infelicidade
crônica da poeta. Teria vivido quase prisioneira, obrigada a um casamento de
conveniência. Alguns juram que sofreu humilhações, o que é negado por outros. Mas
devemos lembrar que a melancolia fazia parte do ideário do romantismo.
Não bastasse, deixou
registros, em cartas e poemas, de ligações ou fantasias amorosas – a mais
notável, com o músico Carvoliva – que colocaram a provinciana São Francisco em
polvorosa.
Foi essa imprecisão e o
acúmulo de sugestões que me fisgaram. Um prato cheio para um romancista, pois,
se analisarmos com rigor científico de historiador, o que se sabe sobre ela se
resume a poucas páginas.
A sua vida com o
Comendador Francisco da Costa Pereira, um português que fez fortuna e foi a
maior influência política daquela região de Santa Catarina, permite traçar um
quadro não só do que eram as relações entre marido e mulher no século XIX, mas
também o ocaso deste tipo de relacionamento. Sem esquecer que o Comendador não
lhe ficava atrás enquanto figura notável, fazendo girar a seu
redor um micro-universo que reproduz o auge e o declínio da Monarquia no Brasil,
sendo ele um ardoroso admirador de dom Pedro II.
A vida de Júlia Maria da
Costa é ao mesmo tempo o retrato e o marco final de uma época. O auge do amor
romântico e do sistema monárquico. O fim do romantismo, da monarquia e da escravidão.
Um mundo acaba e outro se anuncia. Desaparece um tipo de mulher e de homem, um
tipo de casamento, um modo de fazer política. Termina a hegemonia do porto de
São Francisco. Chegam ao Brasil as primeiras levas de
imigrantes da Alemanha, da Itália, e de outros países europeus. Finda o reinado
de D. Pedro II, por quem Júlia e o Comendador tinham imensa admiração. E começa
a república.
Em resumo, o fim de uma
época, como o fim de um amor, é o fim do mundo. Como todos sabemos.
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NOTA: Sobre Júlia Maria da Costa, além de meu
romance (Júlia, Ed. Leitura,
Belo Horizonte, 2008), foi editado o volume Poesia, pela Imprensa
Oficial do Paraná, em 2001, quando dirigida por Miguel Sanches Neto.