Japão em chamas

Roberto Gomes
Dia desses citei aqui uma frase de Rubem Braga segundo a
qual “as desgraças nos ensinam geografia”. Agora, com o terremoto e o tsunami
que destroçaram o nordeste do Japão, retorno a ela. Ficamos sabendo da
existência de Sendai, Fukushima – e não se trata de uma existência abstrata ou
escolar, mas concreta: gente, casas, ruas, lojas, carros, tudo triturado. Conquistamos
uma ideia mais precisa do nordeste do Japão.
Passei horas diante da televisão, imóvel e mudo ao longo de
vários telejornais, indo de um canal a outro, sem saber se conseguiria sentir
um abalo emocional à altura da calamidade que tinha diante dos meus olhos.
Não aprendemos apenas geografia. Aprendemos como são
frágeis as realizações humanas diante das chamadas forças da natureza. E, de
arrasto, junto com essas águas furiosas, aprendemos algumas noções do que sejam usinas nucleares, energia atômica – e descobrimos como
elas também escapam de nossa compreensão.
Lembrei-me do primeiro ano do curso de Filosofia. O
professor de Metafísica, padre João Zelesny, um tipo avantajado
e dogmático, enfiado numa austera e puída batina negra, convidou um padrezinho
miúdo, chamado irmão Firmino, formado em Física e Química, para nos dar algumas
aulas a respeito da teoria da relatividade e das modernas teorias atômicas.
Foi um sucesso, o padrezinho. Era competente e muito
enfático. Desmontou Einstein até que coubesse em nossos cérebros destreinados
em lidar com coisas físicas, e não metafísicas, e fez esquemas no quadro-negro
explicando o que era uma reação atômica e o que significava, afinal, isso de
quebrar um átomo, retirando dele energia.
Esqueci detalhes e não posso jurar pela exatidão de minhas
lembranças. Mas lembro de uma coisa: o frio que me percorreu a espinha quando irmão
Firmino explicou uma reação em cadeia que, não fosse controlada, prosseguiria
ao infinito. Era o incontrolável, coisa física que me causou um choque metafísico.
Pensei nisso ao ver as imagens desfocadas das explosões em
Fukushima. A correria dos técnicos japoneses, os caminhões de bombeiro com seus
jatos anacrônicos, os helicópteros largando nuvens desesperadas de água sobre
os reatores. Tudo a ver com uma batalha antecipadamente perdida. Os chamados
“50 heróis de Fukushima” – que na verdade são 180 – participavam de uma luta
inglória.
Ao mesmo tempo, políticos, empresários e tecnocratas, como
sempre, escondiam informações, minimizavam perigos, anunciavam vitórias
inexistentes, manipulando dados. Era o incontrolável. Hoje, quarta-feira, dia
23, o incontrolável chegou às torneiras de Tóquio: a água está contaminada.
Não penso que tal susto possa ser atribuído apenas à minha
ignorância a respeito do assunto. Há, no uso da energia nuclear, algo que urge
discutir a partir de agora. Suas vantagens alardeadas compensam os riscos a
assumir? Já tivemos pelo menos três grandes sustos desde 1979. Three Mile Island,
Chernobyl e Fukushima. Disparado o incontrolável, é preciso contar com a sorte
e com o sacrifício de muitas vidas para deter o desastre.
O primeiro-ministro do Japão, Naoto
Kan, entrou na sede da empresa Tepco, responsável
pela usina, esbravejando e exigindo que algo fosse feito. A gritaria se
espalhou pelos corredores do prédio. É uma cena emblemática. O que pensar de um
instrumento gerador de energia que, ao falhar, nos deixa como alternativa contar
com a sorte ou rezar? Ou esbravejar, se somos
primeiro-ministro.
Para um leigo – faço parte dos 99,99% da população de leigos
em assuntos dessa natureza – é assustador. O petróleo tem data marcada para
morrer e é um poluidor feroz. As hidrelétricas causam impactos muitas vezes
irreparáveis. No que se refere à energia atômica, o incontrolável nos espreita.
A questão da energia, venha ela do
petróleo, do carvão ou dos reatores, levanta graves impasses. Uns esgotam
recursos naturais e, outros, criam ameaças de fim de mundo. Talvez os projetos dos
que falam em recursos alternativos e renováveis não sejam mero delírio
romântico.
Se deixarmos o assunto nas mãos do “mercado” e dos
tecnocratas, teremos surpresas. Como trovejava a voz de tenor do padre João Zelesny no começo de cada aula:
“Oremos!”
E nos obrigava a ficar de pé e a ouvi-lo desfiar um
padre-nosso antes de enfrentarmos Tomás de Aquino e Aristóteles. Não nos
restará mais do que isso.