Hoje tem espetáculo?

Roberto Gomes
Lá vem o circo.
Quando eu era criança, os circos tinham nomes em espanhol ou italiano – só isso
já lhes dava uma aura irresistível de fantasia. Hoje, o circo da moda tem nome
francês. Mudou a língua, mas não a natureza do espetáculo. Continua sendo a mais
pura arte do encantamento. No entanto – e o povo tem dessas manhas ao manejar
as palavras – circo também designa o contrário de todo encantamento. Se refere a algo farsesco, grotesco, repetitivo, ridículo.
Nesse
2010 chuvoso,
sujeito a desmoronamentos e terremotos, aquecido pelo calor de mil fornalhas, seremos
vitimados por nova campanha eleitoral. Na verdade, político brasileiro governa
desde o dia da posse pensando na próxima eleição. O que começa agora é a caça
ao voto, última etapa do processo.
Os primeiros
indícios, em outros tempos, da chegada do circo era aquela camionete caindo aos
pedaços com um alto-falante em cima da cabine. Hoje, a mídia é a camionete e
anuncia os primeiros resultados das pesquisas eleitorais. Anúncio feito com
pompa e circunstância, como se aqueles numerinhos e barras estatísticas fossem a
essência mesma da democracia.
Ledo engano, penso eu. Essas pesquisas, ao invés de indicar caminhos
para o exercício democrático, conduzem a questão
política a um beco sem saída. Claro que não sou contra pesquisas, embora eu não
conheça ninguém em cuja porta algum pesquisador já tenha batido para coletar
sua intenção de voto. Mas deve ser assim mesmo, imagino.
Ocorre que as
pesquisas acabam dirigindo os eleitores a uma espécie de jogo ilusório. Segundo
elas, o candidato tal sobe um tanto, o outro cai um pouquinho, de tal data a
tal data. Daí resulta uma curva, ao modo das cotações das moedas e das ações
nas bolsas. Não me parece que isso tenha mais conteúdo do que as pesquisas
interativas feitas pela mídia. Não que sejam falsas. Ocorre que, embora se diga
que um candidato sobe ou desce, não se diz por quais
razões, que sequer são discutidas, sejam elas fatos ou idéias. Os candidatos
são confrontados como se fossem produtos – moedas, ações ou sabonetes – dos
quais se faz uma pesquisa para saber qual deles tem a imagem que mais agrada ao
público. Ora, como tal agrado nada tem a ver com o que esses candidatos fazem
ou fizeram, são ou pensam, planejam ou criticam, tudo isso
tem a profundidade das votações dos reality shows. Escolhe-se o mais
esperto, o mais arrogante, o mais malandro, o que dá golpes baixos com finura,
o oportunista, o que sorri dos próprios trambiques ou o que se jacta da própria
ignorância.
Isso é triste e
é pouco, me parece. Ainda mais num país como o Brasil, onde partidos são meras
siglas sem conteúdo, podendo abraçar idéias de diversas origens e tendências, sejam
elas contraditórias ou simples ausência de idéias. Se pensarmos nos candidatos-produtos,
os melhores deles, aos olhos dos marqueteiros, são uma
espécie de tabula rasa na qual se pode inscrever qualquer tipo de
ideário ou projeto político. Candidato muito definido, muito convicto, com um
plano claro na cabeça, costuma ser péssimo de voto, dividindo mais do que
somando. Por isso, há candidatos que preferem ficar calados, sobretudo se estão
no alto das pesquisas. Quando estão em baixa, adotam um estilo inquieto e feroz.
Enfim, estão ali para que os eleitores projetem neles suas fantasias
eleitorais.
Esse é o circo.
É uma pena que
a palavra circo tenha também essa outra face, mas isso afinal é comum às palavras.
Lembro aos leitores que um dos xingamentos mais ofensivos da língua portuguesa
é usado ao mesmo tempo para expressar grande camaradagem entre quem o diz e
aquele a quem é dirigido.
Portanto,
assumamos a ambiguidade: é muito bom que a palavra circo sirva também para
designar esse triste espetáculo que assistiremos nos próximos meses. Afinal, no
circo aprendemos não apenas a nos maravilhar, mas também a estabelecer a diferença
que existe entre o mágico e o trapaceiro, o palhaço e o
bobalhão, o corajoso e o fanfarrão, o forte e o prepotente, a equilibrista e a
desastrada, o orador – que anuncia que hoje tem espetáculo – e o boquirroto –
aquele que pensa que ele é o espetáculo.
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