História imaginária
(e verdadeira) do Brasil


D. João VI ao chegar ao Brasil (1808) e
quando volta a Portugal (1821)
Roberto Gomes
Estou lendo o
livro do Laurentino Gomes, 1808. O livro é muito bom e nele habitam muitos
personagens extravagantes. D. João VI, o estranho no ninho, sua mãe, dona
Maria, a Louca, e aquela espanhola intratável e meio doida, a Carlota Joaquina. A travessia do Atlântico e a descrição de
como eram Salvador e Rio de Janeiro, rendem páginas notáveis. Sempre me pareceu
que esse pedaço da história brasileira merecia ser melhor
contada, sobretudo após os estragos feitos pelo cinema nacional, que reduziu a corte
de D. João a um bando histérico de paspalhos. Bom, não foi a primeira vez que
nosso cinema estropiou obras literárias e figuras históricas. Laurentino coloca as coisas em seu lugar e faz um livro sem
odores de academia.
Devo dizer que
comecei a leitura do livro numa madrugada gelada e sombria mas,
já no início do primeiro capítulo, disparei a rir.
Explico. Para ilustrar
o que significou a fuga, o autor nos sugere um exercício de imaginação. “Imagine que, num dia qualquer, os brasileiros acordassem com
a notícia de que o presidente da República havia fugido para a Austrália”. E
por aí vai, mostrando a enormidade que foi deslocar a Corte naqueles navios
suicidas da época, carregando móveis, pratarias, ouro, documentos, cristais
etc. Esqueceram a biblioteca Real e seus 60 mil volumes no cais, mas isso se
compreende.
O meu ataque de
riso sobreveio ao imaginar que, ao contrário dos portugueses da época, que sofreram
ao ver o Rei sumir mar afora, os brasileiros, caso vissem a atual classe
política, seus agregados e serviçais, partindo rumo ao exterior, seriam capazes
de produzir, mesmo que fosse neste frio e medonho mês de julho, um verdadeiro
carnaval. A fuga seria comemorada com foguetório.
Imaginemos,
então, que amanhã descesse uma frota de naves espaciais cheias de
extraterrestres – afinal, Napoleão nunca me pareceu ser deste planeta – ali
pelas redondezas do Mato Grosso. Imbatíveis, rumariam na direção de Brasília,
São Paulo e Rio de Janeiro. Lula declararia não saber de nada, reclamando do
pessoal do G8, que não o avisou. Dona Marisa poria abaixo suas gavetas em busca
do passaporte italiano, telefonaria para os filhos e arranjaria uma vaga para
seu cabeleireiro no avião presidencial. E fugiriam acompanhados de Sarney, que
na nova república a ser implantada algures, ficaria com o encargo de organizar
o parlamento. Collor receberia a chave dos cofres da nação para reunir as
riquezas disponíveis. O pessoal do mensalão faria coleta entre empresários, arrecadando
trocados para implantar o projeto de Dona Dilma, o PBnE
(Projeto Brasil no Exterior). O banqueiro Daniel Dantas seria nomeado para o
Banco Central do novo país, no qual o delegado Protógenes
seria de imediato declarado persona non grata. Sem falar nos partidos da base e da
“oposição”, que adeririam, como sempre. Nos aeroportos, veríamos filas de fugitivos:
governadores, prefeitos, burocratas, empreiteiros, portando ações
preferenciais, obras-de-arte, relógios Rolex.
Esqueceriam a Biblioteca Nacional, é claro.
Enquanto isso,
a plebe ignara, ao invés de choramingar ou jogar pedras como fizeram os
portugueses com a comitiva de D. João, bateria palmas frenéticas.
Mas aí, como
diria o filósofo Tarso Genro, surgiria uma contradição histórica na superestrutura.
Como, de todas as artes, o Lula só gosta de futebol, ele baixaria decreto dando
nacionalidade antecipada aos jogadores da seleção, transferindo-os para o
futuro país. Os jogadores, sempre servis e oportunistas, aceitariam “o que o
professor mandasse fazer” e fugiriam também.
Aí, teríamos
problemas. “A seleção, não!” – bradaria o povo, empunhando faixas e cartazes,
invadindo portos e aeroportos, o que poderia melar o êxodo da classe dirigente,
o que seria péssimo.
Enfim, apesar
do frio, passei boa parte da madrugada me divertindo muito. Por isso recomendo
o livro e o exercício aos meus leitores.
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robertogomes@criaredicoes.com.br