Frases famosas que jamais foram ditas

Roberto Gomes
Circulam por aí
frases jamais ditas e não raro atribuídas a alguém que não seu autor. O que
produz algo insólito: pode acontecer que a frase mais conhecida de um autor não
seja de sua autoria.
É o caso do recente
chiste de Obama, que teria chamado Lula de “o cara”.
O equívoco foi consagrado pelo retratado e seus marqueteiros,
sequiosos de fama e fortuna e, no fundo, movidos por aquilo que Nelson Rodrigues
chamava de “complexo de vira-lata”. Não há nada que encante mais a brasileiros
– rendendo popularidade – do que elogios vindos do exterior.
Obama não disse que Lula é o cara. Referiu-se
a ele como “my man” – em português,
algo como meu chapa. No entanto, para todo o sempre será repetido que Obama o chamou de o cara. Pegou, não tem
jeito, não desgrudará jamais.
O mesmo se deu
com a frase que todos pensam ter ouvido no filme Casablanca: “Play it again, Sam.”. A verdade é que essa
frase não é dita no filme. Ilse (Ingrid Bergman) diz:
“Play it once, Sam, for old time sake. Play it, Sam. Play As Time Goes By”.” E Rick (Bogart) pedirá a Sam: “You
played it for her, you can play it for me”.
Como se vê, a
versão é bem melhor do que o fato. “Play it again,
Sam” tem a força dos diálogos fulminantes,
contundentes, definitivos. Por isso a frase consagrou-se e todos juram que a
ouviram.
Quando Jânio
Quadros renunciou, em agosto de 1961, talvez depois de uma dose mal calculada
de Johnny Walker, teria dito que fora levado àquele ato por “forças ocultas”.
Ótima expressão, mas, ainda que Jânio fosse cultor de um vocabulário rebuscado
e pedante, ou por isso mesmo, não a cunhou. E tentou desmentir, diga-se, sem
sucesso. Consagrou-se a expressão forças ocultas, bem melhor, aliás, do que
tais “forças terríveis” que Jânio de fato usou.
O mesmo
acontece com certas interpretações dadas como definitivas. Arthur Clark, em 2001,
uma odisséia no espaço, deu ao computador da história o nome de HAL. Os
paranóicos de plantão, imaginando conspirações por toda parte, sacaram a exegese perfeita: seria uma referência à IBM, o monstro
multinacional da época, pois o nome HAL é formado pelas letras que no alfabeto
antecedem as letras IBM. De nada adiantou Arthur Clark desmentir, por escrito
ou em entrevistas diversas, explicando que HAL significava apenas Heuristic Algorithmic.
Consagrou-se, não há o que fazer. O próprio Clark cansou de desmentir.
Desconfio que no fundo aceitou a versão.
Há equívocos muito
antigos, vindos do século XVI, como a frase “Mateus, primeiro os teus”. É
citada como sendo da Bíblia. Não é. Aliás, é pouco compatível com o ideário
altruísta da religião. A explicação do equívoco está num livrinho de João
Ribeiro, Frazes feitas, de 1901, onde
ele diz que se trata de uma criação popular moldada sobre o vocábulo medês (mesmo): “começar por si medês
a caridade”. Mas Ribeiro lembra que Mateus, antes de se converter, teria sido
agiota. Logo, a invenção popular pode ser a melhor.
O general De Gaulle, quando da Guerra da
Lagosta entre França e Brasil, teria dito que o “Brasil não é um país sério”. Se
não disse, deveria ter dito, pois de qualquer forma a frase se consagrou. É
claro que ele desmentiu – mas quem leva a sério desmentidos de políticos? O
fato é que a frase, apoiada no mesmo complexo de vira-lata que habita corações
e mentes de brasileiros, ficou para sempre.
Por fim, um
exemplo clássico. Quando se fala em Sherlock Holmes, há sempre quem dispare a frase
perfeita: “Elementar, meu caro Watson”, que não consta de nenhum livro de Connan Doyle, o criador de
Sherlock Holmes. Aliás, sendo o narrador das aventuras de Sherlock, o doutor Watson
não daria essa mancada. Foi inventada pelo cinema e, tire-se o chapéu, é ótima.
Doyle assinaria.
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