Figurinhas de futebol

Roberto Gomes
Entre as
ocupações de criança, uma das mais ingênuas e que dão à infância um sabor
insuperável, é preencher um álbum de figurinhas.
O primeiro
destes álbuns – que não era sobre futebol – recebi de presente do tio Otávio,
uma das lendas que eu cultivava, pois ele fora, segundo me
contavam, um grande jogador de futebol. Grande para todos que o
conheceram em campo, na década de 1930, jogando pelo time do Íris, de Florianópolis,
que foi vice-campeão estadual por três vezes, de 1934 a 1936. Nada que se
compare com a fábrica de celebridades em que o futebol virou mais tarde, é
claro.
Quando me dei
conta de que estava ao lado de um grande jogador, ele já era um senhor roliço, barrigudo,
lerdo, usando um daqueles bigodinhos que os catarinas
costumam cultivar. O que o ligava ao futebol não era mais a bola, o campo, a
torcida. Era o rádio. Flamenguista doente, ficava ao
lado do rádio cofiando os bigodes com fúria, espantando a gurizada que fazia
barulho em volta e dando murros no aparelho – ora porque não funcionava
direito, enchendo a casa com guinchos e zumbidos, ora porque o Fluminense fazia
um gol, o que era uma catástrofe inominável.
Durante o jogo,
tio Otávio não dizia uma palavra; limitava-se a rosnar alguns palavrões
moderados. Casmurro, quase sinistro, ficava ao lado daquele imenso aparelho cujo
olho verde nos seguia pela casa. Se o Flamengo ganhava, tio Otávio saía daquele
catatonismo tenso, dava risadas, distribuía doces aos meninos, achando tudo divertido,
até nossas gritarias. No caso de uma derrota, era bom que
fôssemos cantar em outra freguesia, o que significava pegar a bola de meia e
disputar uma pelada duas quadras de distância, no mínimo. Ele se tornava
intratável. O primeiro moleque que o irritasse recebia um cascudo vigoroso ou
era dependurado pela orelha, enquanto ele mordia os próprios lábios, contendo a
ira sagrada de flamenguista.
Visto assim de
longe e considerados os cascudos que levei, eu teria motivos para jamais torcer
pelo Flamengo, mas deu-se o contrário. Acabei, como todos os meus primos –
exceto um, Cláudio, um ovelha negra que se bandeou
para o Vasco – virando flamenguista.
Pois foi este
tio que me deu o primeiro álbum de figurinhas, que se chamava Atlas. Fiz o
álbum, mas relaxei e não consegui completá-lo. Mas ele, obsessivo também nisso,
fez dois álbuns e, quando os completou, deu um deles para mim, impecável, sem as
orelhas de burro e sem as manchas de dedos sujos que emporcalhavam o meu. E o
mais interessante é que, concluído o álbum, era possível trocá-lo por um álbum com
capa dura, com as figurinhas impressas. Ele se deu ao trabalho de trocar o
álbum para mim.
O que vale a
pena contar é que, num dia de raro bom humor, ele se misturou aos meninos que
jogavam na rua e tomou conta da bola. Até hoje fico lembrando daquele homem
pequeno, gorducho, cabelos grisalhos, fazendo da bola o que bem entendia. Ela
se ajeitava ao seu sapato de verniz, girava no ar com efeitos surpreendentes,
voltava a sua cabeça, desmanchando os cabelos grisalhos ajeitados com glostora – uma goma com a qual na época todos os adultos
empastelavam os cabelos. Depois, domesticada, a bola descia pela perna da calça,
equilibrando-se no vinco impecável, e, dócil, retornava ao verniz do sapato. Ele
a colocava onde queria. Na cabeça de meu primo César – também um craque, que na
década de 1960 foi centroavante do Figueirense – ou
pelo meio das pernas do goleiro, ou no meu peito de menino assustado, que suava
frio para não parecer um perna de pau, o que de fato
eu era.
Pois tio
Otávio, conhecido como Pavão, apesar do mau humor e do aspecto sinistro que
assumia às vezes, ficou para mim como o modelo de craque de uma época antiga,
da qual só ouvi falar. Uma dessas figurinhas fascinantes que fui colecionando
vida afora, ao lado de Zizinho, Nilton Santos, Garrincha,
Coutinho, Pelé, Teixeirinha – um endiabrado jogador catarinense – criaturas de
um tempo bom e ingênuo, onde os homens eram capazes de grandes feitos e
existiam para serem lembrados por suas façanhas.
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