Fantasias
pré-sal e pró-Carnaval

Roberto
Gomes
Ao contrário do
que imaginam os realistas, as fantasias é que moldam o destino humano. Os
gregos, por exemplo, foram os primeiros que se atreveram a imaginar que eram gregos
– e deu certo. Até hoje nos alimentamos desse desabusado disparate helênico e,
sabendo disso ou não, nos apoiamos nele para inventar artes, sociedades,
instituições, legislações, pensamentos, ciência e, infelizmente, guerras.
Aliás, nisso de
guerras os gregos eram muito impulsivos e iam para as batalhas com o coração
tão aberto quanto o daquele personagem do notável humorista português Raul Solnado, recentemente falecido. Desempregado, o sujeito vê
na guerra um modo de ganhar a vida matando gente sem ser preso. E vai à procura
da porta da guerra na qual bate e pergunta:
- É aqui que
fica a guerra de 1908?
Daí em diante
se desenrola um diálogo aloprado que só um gênio poderia inventar.
Mas voltemos às
fantasias, que são outra coisa, embora sejam o mesmo.
Quando
adolescente, conheci em Blumenau um tipo que era um humilde funcionário da
prefeitura. Passou a vida numa saleta escura, remexendo papéis inúteis.
Acontece que se imaginava rico. Senão de fato, de direito. Vestia-se com muito
esmero, embora com um único terno, tinha duas boas camisas e uma bela gravata.
Almoçava em restaurantes baratos que serviam pratos feitos e ia palitar os
dentes na porta do restaurante mais chique da cidade, a Gruta Azul, onde
gastava horas conversando com figurões endinheirados e chefetes
políticos locais. Exercitava conversas de rico, dava opiniões dignas de
poderosos, falava como um proprietário do mundo. Não tinha onde cair morto, o
que era irrelevante, pois, ao se recolher ao quarto de pensão onde morava,
trazia na cabeça as mais eufóricas fantasias de um endinheirado. Acabara de
conversar com o prefeito, com o dono das fábricas Hering,
Artex ou Porcelanas Schmidt. Além do mais, cumprimentava e se despedia
gastando a meia dúzia de palavras que conhecia da língua alemã. Por isto era
rico. E feliz.
Por aí se vê
que o importante não é exatamente o que o sujeito é, mas o que ele pensa ser.
Dona Nezinha, por exemplo, moradora aqui da Vila,
imagina que tem cerca de vinte e dois anos. Ou melhor, vinte e um. Há mais de
cinco décadas. Sai ano, entra ano, ela segue com o mesmo sorriso de botox, fixo e imutável como o de uma estátua.
Não é essa a
única fantasia de dona Nezinha. Também se imagina rica, embora ricos tenham sido seus avós, donos de fazendas
e palacetes. Com os azares da sorte, a família perdeu tudo e se espalhou por
atividades diversas, sobrevivendo como era possível. Dona Nezinha
acabou aqui na Vila, onde mora numa casinha simples junto com seu cão doberman chamado Astolfo. Mas
vive de rendas: aluga um apartamento, herança que lhe deixaram em Caiobá. Ora, quem vive de renda não pode ser pobre,
convenhamos.
É feliz? É rica
de verdade? Que importa? Tal como o sujeito que palitava os dentes na calçada
do restaurante mais fino da cidade, ela conhece toda a alta sociedade, tratando
com intimidade a juízes, desembargadores e políticos, todos seus colegas de
infância. Lá uma vez ou outra, um carrão com chofer uniformizado, enviado por
uma amiga dos tempos de escola, vem buscá-la aqui na Vila.
- Reunião da
turma do Sion, explica ela aos curiosos que se juntam
para ver o fenômeno de quatro rodas e brilho impecável.
Pois dia
desses, quando ela descia do carro, um novato aqui da Vila, chamado Bill
Paulistinha, fez uma piada sobre pobre metido a besta. Dona Nezinha,
atônita e chocada, enfiou o pé numa poça d’água
e enlameou o vestido que reserva para ir às reuniões da turma do Sion.
Bill só parou
de rir ao receber um brutal pé de ouvido que o cego Tião, o
filósofo e guardião da Vila, lhe acertou.
- Deixa de ser
besta, sujeito, disse o cego. Dona Nezinha é a única
rica que temos aqui na Vila. É a nossa classe alta, entendeu? Toda sociedade
tem uma, nós temos também. É bom o senhor aprender.
E o cego Tião
deu o braço à dona Nezinha, conduzindo-a até a porta
de casa, como se deve fazer com uma grande dama, além do mais, rica e jovem.