Escreva um best-seller e fique
milionário
Roberto Gomes
Lição número
um: pense em dinheiro. Nada de veleidades literárias.
Segunda lição:
escreva em inglês. Se escrever em português, inspire-se no jeitão das traduções
de best-sellers: português pedregoso. Ou seja: nenhuma dieta à base de Machado,
Graciliano ou Guimarães Rosa. A banalidade é a chave do sucesso.
Terceira lição:
não situe sua história no Brasil e não dê aos personagens nomes usuais. Seja
brega: lasque nomes diferentes. Com letras duplas ou com K, Y ou W. Algo que
lembre nome de patricinha, certo? Afinal, você está de
olho numa adaptação para o cinema.
Quarta lição, os
personagens. Se você nunca leu sobre personagens planos ou redondos, tanto
melhor. Esqueça. Opte pelos planos. Um sujeito chamado Alli
será de etnia árabe, de família pobre, tem pai autoritário e mãe sofredora. Alli conhece um menino chamado Israel, que será judeu etc.
Não complique. Mulheres, sendo jovens, são bonitas. As feias são sofridas e
tristes. As bonitas são burras. Pelo menos um dos personagens deve imaginar que
tem uma missão única no planeta.
Quinta lição: o
enredo. Tal como nos roteiros de cinema, gaste as primeiras páginas apresentando
os personagens. Quanto ao Alli, sendo muitos os
clichês sobre árabes, nem é preciso explicar nada; o leitor já tem seu modelo
de árabe na cabeça. Outro personagem: Carl Gustav –
nos releases, espalhe que é uma referência erudita a
Jung – filho de judeus alemães, sonha em ser economista. Madelleine
– viu o efeito da letra dupla? – é bela e original: deseja ser modelo.
Apresentados os
personagens, crie um conflito. Do Alli com o Carl Gustav, da Madelleine com a
Silmara – não esqueça de apresentá-la. Pronto: os personagens se separam. Você já
leu isso? Eu também, várias vezes, há muitos anos. Não se chateie: você quer
ganhar dinheiro e não está nem aí para novidades – os redatores de novelas
reescrevem a mesma história há anos.
Vamos lá. Alli descobre que os pais de Carl Gustav,
ao final da guerra se apossaram de um tesouro que pertencia a seu avô. Para
encontrar o tesouro Alli precisa invadir a propriedade
da família de Carl – personagem de best-seller vive em grandes propriedades,
não esqueça. Alli pede a ajuda de Silmara, que
conhece a língua alemã e se disfarçará de governanta. Mas Silmara fica gamada
no Gustav. Assim, o sutil Alli
vai criar um atrito entre eles e Madelleine. Todos se
desentendem. Sacou o conflito?
Bom, Carl Gustav mora nos EUA, Texas, onde se tornou exímio filólogo.
No entanto, saudoso de Madelleine, casa com uma
americana chamada Stephanie, vira guru de um grupo de
ex-quakers e, mais tarde, funda sua própria igreja. É
quando – lá vem a apoteose – os dois, Alli e Gustav, se encontram num
congresso de exegese de textos antigos, interessados em decifrar o mesmo
manuscrito – aquele, lembra?
É bom colocar algum
conteúdo místico no manuscrito. Seria um antigo texto sagrado hindu ou guatemalteco
– insinue alguma ligação com o Vaticano ou com a Maçonaria. Ocorre que, pela
natureza do texto, Alli e Carl Gustav
só podem decifrar uma metade da mensagem. Eis o impasse. Irão colaborar? Todo
best-seller, embora escrito para ganhar dinheiro, deve conter uma lição de
moral, não raro apontando que dinheiro não é tudo na vida. Aproveite: Carl e Alli resolvem colaborar. Fale em valores positivos, mundo
corporativo, pode render palestras depois do lançamento do livro. Os dois
resolvem o enigma. Mas, quando tudo parece se resolver, surge Sigrid, que está envolvida com um grupo de extrema direita
norte-americano. Chantageia os dois. E agora? Ah, Madelleine conhece a história pregressa de Sigrid e a desmascara.
Para o gran-finale, case os personagens. Um casal ruma para o Rio,
outro se refugiará num recanto germânico. Carl Gustav
vende as ações de sua igreja para um pop-star e casa com Sigrid
ou Madelleine. Alli fará
sua sonhada travessia do deserto do Saara, casado com Silmara ou Sigrid, se elas não resolverem casar entre si. E não esqueça:
deve haver um personagem perverso que sofrerá punição, pois nos best-sellers e
nas novelas de TV o mal é sempre punido. Ademais, seu romance não se passa no
Brasil.
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roberto.o.gomes@gmail.com