Eles passarão

Roberto Gomes
Hoje, segundo
anotei aqui, eu deveria falar de senadores e bandalheiras, esse triste
dia-a-dia da nação. Mas vou falar de passarinhos, não de senadores. Por um
simples motivo: os senadores passarão.
Noto que o número
de passarinhos está aumentando. Quando vim morar aqui, há dez anos, eram
poucos. Havia os inevitáveis pardais, que estão por toda parte, sendo uma
espécie de volkswagen da
natureza.
Agora, temos
uma quantidade enorme de pássaros. Sabiá, sanhaço, bem-te-vi, canário da telha,
pombinha, joão-de-barro, vira-bosta, pica-pau, beija-flor, periquito, papagaio,
gavião, anu, quero-quero. Invadem as praças, revoam pelo céu, enchem as
árvores, ocupam os telhados. Reúnem-se em bandos democráticos – embora, ou por
isso mesmo, briguentos – para comer as frutas e quireras que meu filho espalha
pelo quintal.
Há quem
especule a respeito dessa invasão urbana de pássaros. Estariam aqui porque
foram expulsos dos campos, onde plantações de soja devastaram árvores frutíferas,
cobrindo o restante com agrotóxicos venenosos. É verdade. Mas também chegou ao
fim o hábito humano (e desumano, no caso) de atirar pedras, dar tiros ou usar
arapucas contra os passarinhos. Sentindo-se em segurança, ficam por aqui, onde
encontram abrigo e comida.
Aos poucos,
aprendo que cada um deles tem uma personalidade. Vejam as pombinhas: são de
aparência doce, quieta, tímida. Arredondadas e macias, vivem
Os sabiás são
majestosos, no canto e no porte. Estranho que caminhem aos pulinhos, ao
contrário do joão-de-barro, que dá elegantes pernadas, de pé em pé, e vai em
frente com desenvoltura e garbo. Não importa: os sabiás são notáveis pela
beleza e pelo canto, do que o joão-de-barro não pode se gabar, embora seja um
construtor engenhoso. Fico imaginando como consegue instalar aquelas casas no
alto dos postes, na forquilha das árvores ou na janela do banheiro do meu
vizinho. Não há chuva ou vento que as destrua. São astutos e diligentes,
portanto – o que os sabiás não são.
Já os
periquitos se destacam pela bagunça e barulheira, que é estridente e festiva,
enquanto a barulheira dos quero-queros, os mais encrenqueiros do pedaço, é ameaçadora. Disputam espaço, fazem ninho no meio do
gramado e reagem a cada passante como se estivessem cheios de razão.
O vira-bosta
(chamado também de passo-preto ou pássaro-preto, pelo que sei) foi para mim uma
revelação. Canta com rara beleza, só perdendo para os canários da telha. A
diferença é que os canários conseguem “dobrar” o canto, como dizia meu pai, que
era fanático por passarinhos e cuja maior alegria era andar com uma gaiola na
qual o seu curió de estimação cantava desatinado. “Canta na mão”, dizia meu
pai, estufado de orgulho. Pois os vira-bostas, apesar do nome danado que
receberam, cantam muito bem e, em bando, até parecem dobrar. Os canários, de um
amarelo deslumbrante, se resguardam, são temperamentais, cantam quando bem
entendem. Algo a ver com João Gilberto.
Bem-te-vis são
gritalhões, mas impressionam pelas cores e pelo ar desafiador. Pica-paus são
mais raros e não cantam, só fazem batucada. São os
percussionistas da turma e, como tal, um tanto amalucados. Os sanhaços são
narcisistas; não há azul mais belo.
Os papagaios
vivem em dupla e fazem tremendo barulho. Gostam do alto das chaminés, não descem ao chão, tal como os periquitos. No mais, estão
sempre deblaterando contra alguma coisa que os aborrece. São irritadiços, os
papagaios. Só perdem em espírito guerreiro para os gaviões, que fazem caçadas
aéreas dignas de filmes da segunda guerra. Volta e meia estropiam um pássaro,
sobretudo as delicadas pombinhas.
Enfim, não
falei daqueles que passarão. Falei dos passarinhos, que não passarão.
Email:
robertogomes@criaredicoes.com.br