Dúvidas cruéis em aplaudir

Roberto Gomes
Teve vontade de aplaudir.
Mas não aplaudiu.
Gostou da música, dos
músicos, mas não aplaudiu. Ficou cheio de dúvidas: seria a hora certa de
aplaudir? Não estaria se excedendo? Um aplauso mal calculado pode ser tão desastroso
quanto um aplauso solitário entre dois movimentos de um concerto. E os outros,
o que pensariam? Gostaram? Não gostaram? Perceberam que ele havia gostado?
Pensariam o mesmo que ele? Mas o que ele pensava?
Respirou fundo, não
aplaudiu.
Um dia aplaudira o
improviso de um clarinetista com entusiasmo. Foi um aplauso solitário. Desejou
sumir poltrona adentro.
Noutra ocasião, foi ao
banheiro no intervalo de um espetáculo. Estava urinando ainda enlevado pela
música de Gershwin, quando um sujeito estacionou no mictório ao lado e perguntou:
- Então?
Ele, empolgado, disse:
- Maravilha!
O outro não perdoou:
- Que nada! Percebeu o
violino? É fraco, o cara.
Atônito, mergulhou um
olhar derrotado na parede branca. Terminou de urinar sentindo tremenda
vergonha.
Chegou à conclusão de que
deveria conter seus entusiasmos. Aplaudir com contenção, jamais puxar aplausos,
jamais elogiar antes de ler ou ouvir, no dia seguinte, as opiniões dos
especialistas. Lia um livro, esperava para saber o que Eustógio
Masquerato escrevera a respeito naquele jornal
paulista. Só depois saía dizendo se gostara ou não – e, dependendo das pessoas
com quem falava, não dizia nada, não revelava sua opinião, sequer soubera do
lançamento do livro. Quando se tratava de música, aguardava o pronunciamento de
Teobaldino Perquê, maestro
e esperto em coisas populares e eruditas: sabia nomes, datas, quem era o
primeiro violino daquele concerto em Paris, gravado no ano de... – ele não era
capaz de lembrar a data, menos ainda do nome do violinista.
Com o tempo, como se
mantivesse calado e circunspeto, passou a ser respeitado no meio literário e
musical. Tido como sujeito profundo e muito exigente. Não aplaudia à toa. Não se empolgava com pequenas proezas provincianas,
não se derretia diante de qualquer texto. Passou a ser considerado o típico
representante do público exigente da cidade em que morava.
Chegava ao teatro ou ao
bar, sentava a um canto, ouvia calado, calado partia. Era acompanhado por
olhares temerosos. O que estaria pensando, perguntavam-se, sendo que neste
momento ele pensava no que estariam imaginando que ele pensava.
Durante anos suas
opiniões, embora crescessem em importância perante o chamado público de
espetáculos culturais, se resumiram a um silêncio solene. Comentava-se que
achara isto ou aquilo, que dissera tal coisa a respeito de tal livro, que
sofrera com tal instrumento tocando meio tom abaixo. Mas, apesar da fama
alcançada, ninguém ouvira uma só opinião sair de seus lábios.
Passou o tempo e chegaram
à cidade uns tipos novos, que não acompanharam a curva crescente de sua
história e de seu prestígio, entre eles um sujeito magro e falador, despachado
e risonho, extrovertido e alegre. Pois foi este tipo que, sem conhecer as
regras de contenção, silêncio e cerimônia da cidade, cercou nosso personagem
após um show de jazz e quis saber, afinal, o que ele pensara a respeito.
Foi um embaraço imenso.
Ele estava acompanhado de dois amigos – tão exigentes e contidos quanto ele.
Olharam o atrevido com olhares cheios de dardos e seguiram em frente, ignorando-o.
Começou aí, dizem, a
falência de seu prestígio. Já não bastava calar-se, já não bastava repetir as
opiniões de Eustógio Masquerato
e de Teobaldino Perquê. Nem
era mais possível agir segundo o costume, fazendo de conta que certos músicos,
atores, pintores, escritores, não existiam. O magrelo, por ser atrevido e
desabusado, não o deixava em paz.
Até que um dia, num acesso
de expansão afetiva, puxou aplausos para um jovem que estava estreando, filho
de um amigo muito querido, a quem devia amizade e alguns avais bancários. Nem
mesmo seus dois acompanhantes e discípulos, que ele mesmo treinara em mutismo
crítico, o acompanharam nos aplausos.
Morreu de enfarto no mesmo
instante. Certamente em êxtase estético, comentaram os jornais no dia seguinte,
pois, como era sabido, ele era um homem de profundo conhecimento artístico,
gosto refinado e um típico representante do público exigente de sua cidade.
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