Duas catástrofes: a natural e a
política

Roberto
Gomes
Catástrofes servem
para aprendermos geografia. É o que ensinava uma antiga crônica de Rubem Braga.
Dizia ele que só assim ficamos sabendo da existência de certas ilhas, vulcões
ou cantões perdidos nos confins do mundo.
Como sabemos, o
mundo mudou e hoje, além de já não serem escritas crônicas líricas e refinadas
como as do velho Braga – os tempos são rudes e ásperos – as catástrofes,
desiludidas de sua tática pedagógica, passaram a ocorrer nos quintais de nossas
casas. Já não nos ensinam geografia. Perdemos o lirismo e os saberes dos
confins do mundo.
É o que ocorre com
essas catástrofes de janeiro. Todos sabemos algo a respeito de Petrópolis,
Teresópolis, Nova Friburgo. Sabemos que dom Pedro II amava passar seus dias
naquelas alturas e alguns de nós já tivemos a sorte de visitar a região.
Então, o que nos
ensinam essas catástrofes? Duas coisas, penso eu.
A primeira é a
solidariedade e o espírito de sacrifício da população em tragédias desse tipo.
Não faltou nem mesmo um salvamento cinematográfico, o daquela senhora içada ao
alto de um prédio por dois rapazes que conseguiram – onde? através de que
milagre? – uma corda suficientemente longa e forte para a proeza.
Não faltaram outros
exemplos. Gente que perdeu tudo, mas que mesmo assim se tornou voluntário e
passou dias recuperando corpos, limpando ruas, atendendo feridos. Um senhor –
pedreiro, pelo que lembro – me deixou perplexo. Perdeu a mulher e o filho. No
entanto, lá estava ele, enxada em punho, ajudando a amenizar dores alheias em
luta com as próprias dores.
Além disso, de todos
os lugares do país, com uma velocidade e um volume incríveis, surgiram doações,
recolhidas por todo tipo de gente, levadas aos postos de coleta a pé, de carro,
de bicicleta. Isso quer dizer que somos capazes de solidariedade e de atuação
efetiva, que nos comovemos e reagimos cordialmente, no sentido que dava a essa
palavra Sérgio Buarque de Holanda: agimos pelo coração. Ademais, que somos
capazes de ações coletivas extremamente complexas – seleção, embalagem,
transporte, entrega, tudo isso que especialistas chamam de logística –
realizadas com grande competência.
A segunda coisa que
aprendemos nos foi oferecida pelo espetáculo de autoridades atônitas, perdidas
como baratas tontas, indo e vindo entre declarações desencontradas,
esquivando-se de responsabilidades com a ligeireza de bagres ensaboados.
Entrevistas cuidadosas, menos preocupadas com as vítimas, os mortos e os
desastres, e mais em como passar uma imagem de eficiência. Todas as autoridades
apontaram a “natureza” como a culpada.
Claro, a natureza
tem seus próprios rumos e, como é dito dos rios, sempre volta a seu curso. Se
os homens dependuram casas onde não poderia haver casas, ela as joga morro
abaixo e as cobre de escombros.
É verdade que as
autoridades, por mais que se imaginem poderosas, não podem nem são obrigadas a
domar a natureza. Mas quem administra uma cidade, um estado ou um país, precisa
estar atento a cuidados básicos. Ou seja: alertar do perigo, socorrer vítimas
com eficiência, determinar e fiscalizar onde é possível construir – os leitores
estarão lembrados do morro do Bumba, quando a catástrofe nos ensinou que um
bairro foi construído em cima de um lixão.
Assim, contrastando
com a capacidade com que a população reage solidária, constatamos a lerdeza e
alheamento das autoridades.
Por isso, lembrei-me
de certos governantes que alegam, diante de protestos populares, que não
“decidem sob pressão”. A verdade é que autoridades só agem sob pressão. Só
pensam quando no limite. No mais, exercem seus truques, disfarçando a própria
incompetência, a falta de planejamento, a falta de visão. A imprevidência. E só
lhes resta fazer, entre voos de helicóptero ou declarações estudadas para a
mídia, caras de preocupação e promessas de providências que jamais serão
tomadas.
A presidente da
república, como se anunciasse uma verdade metafísica, disse e repetiu que a
ocupação irregular é uma regra. Esqueceu-se de dizer que, se a catástrofe
natural está além da força humana, a catástrofe administrativa é a triste lei
dos homens.
e-mail: roberto.o.gomes@gmail.com