Diário de bicicleta

Roberto Gomes
Pois roubaram minha
bicicleta.
Trata-se de uma magrela
cheia de recursos, preta, reluzindo de nova, sem um arranhão, embora estivesse
comigo há dois anos e meio, quando a recebi de presente de meu filho. O número
do quadro, aviso a quem for comprar bicicleta de segunda mão, é 00069JF. Caloi. Nela andei pela metade de Curitiba, visitei bairros
e praças, sempre pedalando em boa ordem e disciplina, sem incomodar ninguém –
e, no entanto, me roubaram a bicicleta.
Mas por que diabos me
roubaram a bicicleta?
O portão eletrônico não
fechou por completo. Chovia. Início de noite. Fazia muito frio. Só dei pela
coisa às sete horas da manhã. Fiquei fulo da vida, saí a percorrer as redondezas,
visitei algumas destas oficinas que vendem bicicletas usadas, jurando que, caso
encontrasse o ladrão, o submeteria a fuzilamento sumário, embora sem saber com
que armas. Seria um fuzilamento a socos e pontapés, talvez. Nunca se sabe o que
pode fazer um tipo de quem roubaram a bicicleta.
Mas onde foi parar a minha
bicicleta?
Não encontrei nem sinal
dela. Sem ter o que fazer, registrei um BO na delegacia mais próxima. Inútil, é claro, como tudo
que fazemos contra ladrões, pequenos ou grandes, de bicicletas ou não. Ingênuo,
perguntei a quem me atendia se a polícia passaria aquela informação a policiais
que estivessem de ronda pelo bairro. Fui olhado com terna piedade e me disseram
que não, a gente só registra: BO número 2007/538615.
Mesmo assim, saí da
delegacia um pouco mais tranqüilo, sabe Deus por qual razão. É o que nos resta
neste mundinho atormentado, onde um sujeito não pode nem ter uma bicicleta de
estimação, que a esta hora já se transformou em algumas
pedrinhas de craque que servirão para que um pateta se imagine um super-homem
fazendo papel de pateta. Claro. Há um receptador, me advertem. Sem ele não se
rouba. Ele é o ladrão, me explicam. Ao menos neste caso se sabe quem é o ladrão,
embora genericamente. O que também não resolve coisa alguma.
Quer dizer, nada a ver
como filme “Ladrões de bicicleta”, do Vittorio de Sica.
E não me senti Antonio Ricci, o pobre diabo que
precisava da bicicleta para trabalhar colando cartazes pelas ruas de Roma. Não
estou desempregado e não precisaria da bicicleta para arrumar uns trocados – os
poucos trocados que tenho me bastam. Era só para pedalar de um lado para outro,
imaginando que ainda sou o mesmo garoto que ia à escola de bicicleta,
atravessando metade da cidade de Blumenau e, ao final, subindo o morro do
colégio D. Pedro II em zig-zag, o que hoje me
cobraria os pulmões, senão um ataque cardíaco.
Assim, meu pobre drama
nada tem da grandeza neo-realista de 1948, não serve para nenhuma apologia do
proletariado e de seus sofrimentos, que no momento do roubo não me pareceram
maiores nem mais dignos do que o meu. Além disso, o ladrão que a levou não terá
sido movido por nenhuma necessidade nobre. Fumou a minha magrela. Transformou-a
em fumaça. Como se vê, o mundo em 2007 é muito menos épico do que em 1948.
Seja como for, acho que eu
e Antonio Ricci temos em comum exatamente isto.
Perdemos a bicicleta – não importa o que faríamos com ela, se somos proletários
ou não, se ela representava ou não um instrumento de trabalho. O essencial é
que eu e ele perdemos a bicicleta. Só quem perdeu uma bicicleta sabe o que isto
significa. Penso agora que a perda em si é o tema do filme; o fato de que serviria
para trabalhar não passou de firula neo-realista,
penduricalho socialista. Hoje o De Sica teria que
fazer um filme sobre isso, esta coisa bruta e sem grandeza: fui roubado, só. Gostaria
de ver. Registra-se um BO e é tudo. Ela virou algumas
baforadas de fumaça e duas folhas de papel que me foram dadas na delegacia, nas
quais, talvez com alguma ironia da qual não me dei conta no momento, o
escriturário registrou tratar-se de um “furto simples”, feito na residência do
declarante e que o meio empregado foi a “destreza”.
E ainda tenho que agüentar
mais esta: a destreza do ladrão!
Como fazia sentido o mundo
em 1948!
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