Cuba: o crepúsculo da revolução.

Roberto Gomes
Não devo ser
exceção. Quando vejo governantes, em especial
burocratas da área econômica, citando estatísticas, louvando suas realizações, me
pergunto: de que país estão falando? Nos relatos oficiais, os números são
otimistas. Crescimento, reformas, realizações. Sendo distraído, olho pela
janela e levo um choque. Habito dois países: um tem cheiro de propaganda, outro
está a minha frente. Um deles é construído pelas estatísticas oficiais, outro é
o mundo real, que teima em existir, com seus defeitos e encrencas, com suas
inviabilidades.
O livro Viagem
ao crepúsculo, do jornalista pernambucano Samarone
Lima – Editora Casa das Musas, 232 páginas – me fez reviver essa agonia, ainda
que o livro fale de Cuba e não do Brasil. Ocorre que Samarone
foi à Ilha com o propósito de conhecer o país real que lá se encontra,
desprezando os grandes discursos, seja dos governantes, seja dos intelectuais encantados
com o charme da revolução cubana.
“O brasileiro –
diz Samarone – sabe muito pouco ou quase nada sobre a
Ilha, Transitamos entre os textos idealizados de Frei Beto e o lugar comum da
mídia.” Entre as idealizações romântico-teológicas e as críticas não raro desonestas,
Samarone escolhe mergulhar na sociedade cubana,
tornando-se um turista inusitado: não quer comprar nada, nem conhecer
monumentos ou andar em ônibus refrigerados, nem ler discursos oficiais. Mochileiro convicto, caminha por
Cuba obstinadamente em busca de seres humanos e de depoimentos sinceros e
espontâneos.
Seu livro é um
delicioso relato de viagem. Vivendo como clandestino, opta pela Cuba real. Mostra-se
um excelente ouvinte. Ouve e registra. Não contesta, não orienta, não polemiza.
Quer saber como vivem os cubanos e se hospeda em suas casas. Comete a primeira
infração: os cubanos são proibidos de hospedar estrangeiros. No entanto, como ocorre com outras proibições, eles burlam as regras.
Precisam juntar seus trocados e assumem os riscos.
A primeira
lição: existem duas moedas. Pesos cubanos e convertibles.
Como não sabia disso, Samarone paga 24 vezes mais
caro por um livro popular impresso em papel jornal. A moça da livraria, na
moita, embolsa a diferença. Seria a segunda lição: o turista deve ser
explorado. E não se trata de chovinismo ou maldade: é
a luta, como dizem os cubanos.
O pão é um
mesmo pão, dois para cada cubano. É preciso comparecer com a libreta, mas, com uma gorjeta, se consegue uma quantidade
maior de pães. O leite é raridade. Arroz, idem. O que alimenta um dinâmico
mercado negro. Celeste, uma senhora cubana que sozinha renderia um romance, atende o telefone, resmunga algo e diz: preciso sair. Quando
volta, trás açúcar, arroz, carne de galinha. A vizinhança forma fila em sua
porta. Samarone não sabe como funciona o esquema, mas
descobre que esses alimentos foram originalmente
destinados a hospitais, refeitórios, colégios.
Os médicos cubanos
– salário mensal: 40 dólares – espalham-se pela
Venezuela, África, América Central. São os médicos “internacionalistas”. Os
estudantes ficam nos hospitais. Uma jovem com quem Samarone
conversou tem vontade de dar uma surra em Michael Moore, que
fez um filme criticando a medicina norte-americana e endeusando a cubana. Ela
gostaria de vê-lo como morador da Ilha.
Sendo pouco o
espaço de que disponho, devo ser direto: leiam esse livro. Que não é mero
registro frio – ainda que ouvir e registrar seja sua grande arte. É também um
depoimento comovente a respeito das grandes esperanças destruídas ao longo dos
50 anos de revolução que Cuba comemora. E não há desculpas: não são limitações
da Ilha e de seu povo, nem cabe culpar o “bloqueio econômico” imposto
criminosamente pelos EUA. Trata-se de uma visão arcaica da sociedade, da
economia, das relações entre as pessoas, da democracia, do vetusto cultivo de
homens-providenciais, os heróis que salvam um povo – no caso, os irmãos Castro.
O livro se lê
com prazer e alegria – aquela que a descoberta do real nos proporciona – mas ao
final nos resta um travo triste na alma. Só a figura de Celeste nos impede o desânimo
completo.
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