Cuba antes e depois de Fidel
Roberto Gomes
Noturno
de Havana (Ed. Seoman) me lembra outro livro a respeito da ilha de Fidel – Viagem ao crepúsculo (Ed. Casa das
Musas), do jornalista pernambucano Samarone Lima, sobre o qual escrevi há cerca de um ano. Noturno é do jornalista norte-americano T.J.English, autor com alguns prêmios no currículo. Não é
um livro brilhante e a edição brasileira tem uma desvantagem: a tradução é
sofrível e a revisão é troglodita. Mesmo assim, povoado de personagens hoje
míticos – Albert Anastasia, Lucky Luciano, Meyer Lansky e, que não se perca pelo nome, Santo Trafficante, tendo como atores coadjuvantes nada menos que
Frank Sinatra e George Raft – o livro de English merece ser lido.
O que pode ligar essas duas obras é o que as
afasta no tempo. Viagem ao crepúsculo,
de Samarone, é pós-Fidel: fala dessa Cuba que o mundo
acompanha há cinquenta anos e que para muitos de nós foi objeto de debates
acalorados, quando não de pugilatos explícitos. Samarone
mostra um país que, depositário de tantas esperanças, se desfez sob o tacão do
autoritarismo, do dirigismo e do sectarismo. Um sonho desfeito. Num país como o
Brasil – onde nada se discute, onde ninguém toma posição intelectual sobre
nada, motivo pelo qual os debates sobre Cuba costumam não passar de uma
descarga convulsiva de preconceitos – ilumina os impasses a que chegou a Cuba
de Fidel.
Já o livro de T.J. English
se encontra na outra ponta da história: pré-Fidel.
Trata do sonho da uma ilha tropical onde tudo é permitido – a Cuba dos cassinos
sob o controle da Máfia, o país de Batista, o ditador fanfarrão, visto com bons
olhos pelos EUA. Um mundo de fantasias, de luzes e delírios, de boates e shows,
de grandes festas, de jogatina, com a música de fundo sob a batuta de Pérez
Prado e sua orquestra.
Essa Cuba pré-Fidel
foi gestada muitos anos antes por duas figuras do submundo: Lucky Luciano e
Meyer Lansky. Luciano, que vivia contrariado seu
exílio na Itália, chegou a Cuba para se reunir com Lansky,
um baixinho de 1,60m também conhecido como “Little Man”. Encontraram-se no
Hotel Nacional e redesenharam seus antigos planos.
Perseguida nos EUA, a Máfia tinha como
objetivo se estabelecer em Cuba como base de ações criminosas, plano que vinha
dos anos 20, quando se tornara rota para o tráfico ilegal de bebidas. Luciano e
Lansky não foram os primeiros mafiosos a chegar a
Cuba. Al Capone teve essa primazia. Ele gerenciou seus negócios entre charutos,
assassinatos e audições de Enrico Caruso, seu cantor preferido.
No entanto, é com Lansky
que essa Cuba florescerá nos anos dourados de 1952 a 1959. O país gozará então
de um crescimento extraordinário. Grandes hotéis-cassino, boates, turismo,
estradas, luzes de néon, mambo, drogas e sexo. Tal “crescimento”, no entanto,
serve apenas para mostrar que a festa se destinava a uma minoria de
estrangeiros e nacionais agregados, além de uma multidão de turistas. A grande
massa da população estava à margem, vivendo na miséria, em casebres, sob o
tacão de Batista, “El mulato lindo”, que amealhava um milhão e meio de dólares
mensais para manter o quintal em ordem.
Estava armada a festa dos anos dourados de
Cuba, a projetada Monte Carlo do Caribe. Foi nesse ponto, o país mergulhado em
corrupção, tráfico e jogatina, que apareceu Fidel, de início ignorado por
Batista e pelos mafiosos, que não o levaram a sério até o último momento,
quando fugiram da ilha levando dólares em maletas e abandonando fortunas
acumuladas com base em atividades criminosas. Não foi sem motivo que Rolando Masferrer, matador de aluguel e senador cubano, tentou por
duas vezes matar Fidel. Depois, quando a situação já estava perdida, Lansky – que ofereceu prêmio de um milhão de dólares para
quem matasse Fidel – fez vários projetos de assassiná-lo, de comidas
envenenadas a explosivos em charutos, mas já era tarde.
Pois entre essas duas Cubas, encontramos
Fidel, que deu fim à festa do crime organizado. Mas Cuba não se tornou o
paraíso sonhado pelos criminosos nem o paraíso socialista sonhado por Fidel. Continuam
lá, apesar de avanços em áreas restritas, a miséria, o atraso, o espírito
ditatorial, a liberdade cativa, as prisões arbitrárias e algumas coisas tristes
e comoventes em seu primarismo. Cinquenta anos após a revolução, Cuba anuncia
medidas que nos fariam rir se não escondessem tragédias: os cubanos poderão a
partir de 01/10/2011 vender ou comprar seus carros! Talvez um daqueles
cadilaques nos quais Albert Anastasia fumava charutos
e mandava atirar em quem o aborrecia.