Com um sorriso nos lábios

Roberto Gomes
Aos poucos eles
foram saindo, um a um, como se fosse um ritual. Beijavam sua testa, acariciavam
seus cabelos, lhe davam um abraço murmurando palavras amigas: força, qualquer
coisa que precisar, não deixe de telefonar, passo aqui no fim da tarde, amanhã
trago aquela oração. Ela agradecia, tentava sorrir, mas queria apenas ficar
sozinha.
Não a deixaram
sozinha. Pareciam temer alguma coisa que ela pudesse fazer ou sentir. No
entanto, o que ela sentia era isso: já não queria fazer nada, não havia o que
fazer.
Quando voltavam
para casa – o sobrinho, sério e triste, dirigindo o carro; a irmã a seu lado,
segurando sua mão – ela sentiu que tudo acabara. A vida não tem surpresas, pensou
ela, todos sabemos o que vai acontecer. Sabemos desde
sempre.
Foi abraçada
por muitas pessoas. Algumas delas, não via há muito
tempo, outras estavam mudadas. O tempo é implacável, pensou desta vez, e também
nisso não havia surpresa, era assim mesmo. E quem era aquela moça jovem, de
cabelos pintados de vermelho? perguntou a uma prima. A
namorada do meu filho, respondeu a prima. Ah, fez ela, sentindo um cansaço
imenso, as mãos caídas sobre o colo. Moça bonita, comentou.
O sobrinho
dirigia muito devagar pelas ruas. Todos se moviam muito devagar. Teve a
impressão de que mesmo os ônibus, sempre barulhentos e agressivos, iam devagar.
Um senhor atravessou a rua lentamente quando o sobrinho parou no semáforo. Lentos
também eram os gestos das pessoas que aguardavam no ponto de ônibus. Até um
menino pareceu tomado pela lentidão. Era um garoto magro que surgiu na calçada com
um pedaço de papel na mão. Ficou lendo. Devagar. Muito devagar.
Aquele menino
fez com que ela cobrisse os olhos tentando controlar o choro. Lembrou dele e de
seus livros, seus trabalhos, suas leituras. Ela o conhecera ainda no colégio,
estavam no segundo ano do primário. Odiaram-se à primeira vista. Ele era
quieto, sério, tinha umas beiçolas carrancudas – segundo ela comentou com uma
amiga. Ela era espevitada, não parava quieta, lhe dava nos nervos, ele lhe
disse muitos anos depois. Durante o recreio, ela desceu as escadas correndo,
esbarrou nele e o derrubou. Ele caiu segurando o joelho machucado e a olhou com
cara de brabo:
- Não olha onde
anda, não?!
Ela não sabia
se o ajudava ou se respondia com algum desaforo.
Disse:
- Não deve
ficar lendo no meio da escada. Escada é para descer ou subir. Não é para ficar lendo.
Passaram um
semestre sem se olhar. Ou melhor, olhavam-se de longe, medindo um ao outro. Ele
achava que ela era bonita. Ela achava que ele tinha um olhar esperto. Ele tinha
vontade de mandar que ela ficasse quieta e ela tinha vontade de puxar os
cabelos dele e sair correndo.
De tanto observarem
um ao outro, viraram amigos. De tanta amizade, ingressaram juntos na faculdade.
Quando se formaram – ele em direito, ela em enfermagem – já haviam decidido: o
casamento seria antes da metade do ano.
Já em casa, ela
diz novamente ao sobrinho que não se preocupe, podia ficar sozinha. O sobrinho
ralha com ela, lhe dá um beijo e diz:
- Nada disso.
Fico com a senhora.
Apenas ela e o sobrinho em casa, passou os dias seguintes
procurando por ele. Eram oito horas, já estaria se vestindo, ajeitando a
gravata, pronto para o trabalho. Atravessa a sala como se fosse um menino sério
e carrancudo e sorri para ela. Beijam-se. Ali pelas duas da
tarde ele está de volta. Ficam juntos o resto
do dia, ela cuidando de suas coisas, vendo um filme na televisão, ele sentado ao
lado da janela, lendo. Quando não estava lendo, achava alguma coisa para
consertar na casa.
Durante vinte
dias se divertiram andando de um lado para outro, evitando chamar a atenção do
sobrinho. Ele não entenderia, lhe disse o marido. É
mesmo, concordou ela, melhor ele não saber de nada.
Na tarde
daquele vigésimo dia, aproveitando que o sobrinho estava distraído preparando um
café, ele deu um beijo nela e convidou:
- Vamos?
O sobrinho a
encontrou quietinha, sentada na cadeira ao lado da janela, um livro nas mãos, um
sorriso nos lábios.
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