Coisas
da vida literária

Roberto
Gomes
Há coisas estranhas acontecendo no mundo literário. Umas
são cômicas, outras trágicas, outras apenas divertidas. Todas estranhas.
Uma delas: editora brasileira anuncia a edição de uma
antologia de contos e crônicas para comemorar seus trinta anos. Até aí, nada de
errado. Os autores interessados são convidados a participar das antologias – pagando,
é claro. Mas há vagas para todos: o regulamento da editora avisa que não se
trata de concurso, todos serão publicados.
O autor custear a edição de seu livro não é nenhum desatino
ou novidade editorial. Mas reunião de textos sem qualquer seleção é demais. A
editora deixa de ser editora, pois abre mão de uma de suas funções básicas. O autor,
cheio de vaidade, joga seu dinheiro fora e ao leitor se entrega um produto que pouco
lembra um livro.
Mas foi num site francês que encontrei algo ainda mais
estranho, anunciado da seguinte forma: “Escrever um livro é fácil! Torne-se o
herói de um romance".
Seguem as instruções: “Crie um romance personalizado no
qual estejam você, seus parentes e amigos e se transforme num herói. Escolha o
gênero de seu romance, responda a algumas questões e nós escreveremos o livro.
Você irá recebê-lo em alguns dias".
Trata-se do livro prêt à-porter.
Quanto ao gênero, o futuro autor e herói
poderá escolher: roman, insolite, suspense, espionnage,
roman noir, politique fiction.
Basta clicar e surge um formulário no qual é possível
preencher quadrinhos com as características dos personagens. Pede-se sexo,
nome, sobrenome, dia e mês de nascimento. São exigidos alguns detalhes, tais
como peso (facultativo), cor e comprimento
dos cabelos. Por que, diabos, o comprimento dos cabelos? É preciso mais:
o herói usa óculos? Como você o descreveria: sonhador, um belo homem ou mulher,
jovem, charmoso, talvez com um físico banal, um tipo não muito bem aquinhoado
pela natureza?
Onde mora seu personagem?
Num estúdio, apartamento, vila, fazenda, castelo, hotel? Com o detalhe: o
que o herói vê quando olha através da janela? A rua, os telhados, o jardim, o
campo florido, o mar? E quando o personagem resolve dar um passeio, que veículo
usa? Zero quilômetro ou um carro antigo?
Agora, coisas mais “profundas”. É preciso dizer se o
personagem se enerva com facilidade e com frequência, se é tranquilo ou meio
zen. Costuma usar uma linguagem corriqueira ou acadêmica? Quando eufórico, que
tipo de exclamação – estamos na França, lembrem-se – usaria entre as seguintes:
Super! Génial! Waouh! C’est de la Balle!
E, quando estarrecido, qual dessas: Non
d’un chien! Bon sang! ou um corriqueiro Merde!?
E suas preferências musicais? Jazz? Clássico? Rock da pesada? Funk? Rap? Segue uma lista
com mais de uma dúzia de opções. E, no caso de uma viagem, seu personagem
escolheria qual dos destinos: Cuba, Ibiza, Japão ou, ça va sans dire, Brésil?
Tem companheiro? De que sexo? Dois dos amigos devem ser os
mais íntimos, o que facilita a narrativa, acredito. E,
como se não bastasse, um pedido macabro: querem que o interessado
em ser herói indique qual de seus amigos estaria sujeito a sofrer um acidente
de automóvel.
Preenchido o formulário, basta clicar num link para
receber, em segundos, um primeiro esboço do romance. Cliquei, assinando-me Jean
Garnier, e vieram duas páginas, das quais transcrevo
o primeiro parágrafo: « Le CD glisse silencieusement dans le lecteur. Quelques secondes plus tard, un air de musique classique
envahit le salon tandis que le charmant Jean Garnier laisse tomber ses kilos
dans son fauteuil préféré». (“O CD roda silenciosamente no
aparelho. Alguns segundos depois, um ar de música clássica invade a sala
enquanto o encantador Jean Garnier deixa cair seu
peso em sua poltrona preferida.”)
Entregam em seis dias. Custa em torno de 29 euros o
exemplar.
Se fosse no Brasil, bastaria acrescentar
que uma das amigas do personagem é tailandesa, que outra vive em Nova York, embora
australiana ou neozelandesa, sendo que o personagem-herói circula continuamente
pela ponte aérea São Paulo-Rio-Nova York, cidades nas quais exerce a trepidante
e charmosa carreira de psicanalista.
Sucesso garantido, com resenhas e entrevistas, como diria
um dos personagens secundários, “a nível de Brasil”.