Carta mais ou
menos aberta

Roberto Gomes
Trata-se de um banco, no bom sentido. Banco de praça. A
praça é a Ivan Ferreira do Amaral, aqui no Jardim das Américas, embora o banco
não seja a rigor um banco. São dois tocos sobre os quais repousa um tronco de
árvore, reto e polido. Um banco, enfim. Simpático e funcional.
Ocorre que dia destes alguns funcionários da prefeitura retiraram
o tronco, que estava se esfarelando. Para ser trocado, imaginamos. Mas,
passadas algumas semanas, lá estão apenas os tocos sobre os quais repousava o
tronco. Isolados, meio perplexos, os tocos esperam o tronco que os transforme
num banco de verdade.
Posso garantir que este banco serve a muita gente. Pela manhã,
pais trazem os filhos para brincar na praça; os pais sentam no banco, as crianças
usam o escorregador. Nos fins de semana, jovens se reúnem em torno do banco
para conversar, rir alto, beber cerveja, dando à praça um ar festivo, apesar da
música que ouvem, se podemos chamar aquilo de música. Algo como tunch-tunch-tunch.
Ao anoitecer, surgem os namorados.
Dia destes, lá estava um casal. Ele, de bermuda. Ela, num
vestido preto, simples e elegante. Pareciam encenar uma peça. Ela erguia a voz,
remexia-se no banco, cruzava e descruzava os braços. Ele retomava a palavra,
dedo em riste. Um dedo acusativo. Ela reagia. Levantou-se por duas vezes, dando
as costas a ele e ao banco. Mas voltou a sentar, disparando gestos e palavras
na direção dele, que abriu os braços, vítima inocente, ficando de costas para
ela e para o banco.
Foi quando tocou o telefone, esse besouro inconveniente.
Dei uma olhada para os namorados, que seguiam discutindo, e fui atender.
Ligação a cobrar. As ligações a cobrar costumam nos causar um certo pânico.
Escutei a mensagem, que parecia não terminar nunca, e... foi engano. Queriam
falar com a loja de ferragens. Explicado o engano, desliguei.
Voltei à janela para ver como estava o drama lá fora;
talvez fosse o caso de chamar a polícia ou descer eu mesmo para apartar a
briga. Mas o engano agora foi meu. Eles haviam sumido. Procurei-os nas ruas
laterais, nada. Foi quando os flagrei descendo pelo gramado, à direita. Abraçados,
trocando beijos, felizes como nunca. Dois passos, um beijo enlouquecedor, mais
dois passos, um beijo apocalíptico.
E lá fiquei eu, na janela, pensando no quanto sou
ignorante nas coisas que dizem respeito ao coração humano. Há pouco ameaçavam
se matar, cheios de ódio e fúria, agora estavam no paraíso.
Estou divagando, perdão. O assunto é outro, embora seja o
mesmo. Ocorre que este banco serve também ao meu amigo Aldo.
Me explico. Aldo Maccagnan é um senhor de oitenta e
tantos anos, simpaticíssimo, grande contador de histórias. Italiano de corpo e
alma – brasileiro de coração. Tem um sério problema na coluna, decorrente de um
acidente de automóvel, e anda com o auxílio de duas bengalas. Mas não se abala.
Todos os dias, lá vem ele subindo a lateral da praça. Usa um boné elegante – o
último sujeito a usar bonés com tamanha elegância.
As dores na coluna não impedem a caminhada diária. Quando
chega ao banco. faz o que chama de seu “primeiro pitstop”. Senta-se,
acende um cigarro e entra em estado de contemplação diante da praça, conferindo
se tudo está em boa ordem, como um soberano zelando pelo seu reino. Depois do
cigarro, retoma a caminhada, rumo ao outro lado da praça, onde fuma mais um
cigarro, no “segundo pitstop”.
Agora sem o banco, Aldo não pode fazer sua primeira
parada estratégica e fumar seus cigarros. Por isso solicito ao prefeito desta
cidade – que imagino cuide também de bancos no bom sentido – que mande colocar novo
tronco sobre aqueles tocos solitários. Aldo é bom sujeito e excelente papo, e
nós dois sentimos falta de nossos encontros matinais, quando, entre outras
coisas, costumamos falar mal dos deuses e do mundo, aí incluídas as autoridades
nacionais, estaduais e municipais, se estou sendo claro. No bom sentido.
e-mail: robertogomes@criaredicoes.com.br