Breviário do(a) candidato(a)

Roberto Gomes
Antes de mais nada, o
candidato não é. Não é candidato, me explico. Nega que seja, desconversa, diz
que está ali para servir ao país, ao estado, ao município. Aliás, candidato não
só não é como não gostaria de ser. Vai concluir o mandato, vai servir ao seu
partido, tem um compromisso com os eleitores. Faz cara de quem nem sabe porque estão lhe perguntando se é candidato.
Mas, é claro, candidato
está sempre sujeito a fortes pressões externas – de
amigos, dos eleitores, do partido – motivo pelo qual ele poderá ser. Depende.
Havendo um clamor popular – entidade metafísica jamais detectada por qualquer
bafômetro eleitoral – e consultadas as bases, ele talvez, quem sabe, poderá
mudar de ideia. As bases não raro estão num vigésimo andar envidraçado ou num
condomínio de luxo cercado por seguranças; dificilmente elas se reúnem às
margens de rios poluídos ou lixões infectos.
Assim, havendo clamor
popular, ele pode ceder. É nesse ponto que o candidato diz uma dessas frases
surradas com ares de sabedoria segundo a qual política é como nuvem, muda a
toda hora, ademais ele não raciocina sobre hipóteses. No que os candidatos são
originalíssimos. Todos – sejam cientistas, filósofos, técnicos, engenheiros ou
donos de botecos – sempre raciocinam baseados em hipóteses. Por um motivo
simples: raciocinar é levantar hipóteses e submetê-las a testes. Todo o
conhecimento humano é feito assim. Não é o que ocorre com os candidatos. Nada
de hipóteses. Podemos supor que não haja conhecimento algum. Coisas de
candidatos.
Por outro lado, o candidato
não apenas não é candidato – ele também não é. Simplesmente não é, já me explico. Se for alguma coisa, pode comprometer as
alianças, os apoios, ferir amigos, desafiar inimigos. É preciso cuidado. Então,
sem raciocinar e sem ser algo de definido, o candidato é antes de mais nada uma
imagem. Mole, maleável, metamorfose ambulante.
Daí que precise se
apresentar com garbo e elegância, o que confunde com ternos que o empacotam, cabelos
engomados, palavras cautelosas. Uma imagem deve lembrar uma nuvem, mas com
mutações sob controle. Quem deseja ter uma imagem eficiente deve manobrar a
arte de ser e não-ser, estar aqui e ali, poder voltar atrás dando a impressão
de que jamais andou para a frente, um exercício digno
de Michel Jackson. O bagre ensaboado é no caso uma boa imagem.
Enfim, quando as pressões
exigem, o candidato se candidata. Não se imagine, no entanto, que ele vá gastar
os seus dias e noites matutando sobre o que já foi feito ou o que se deve fazer.
Ele é só uma imagem e seus adversários também são imagens. O jogo político não
se dá entre ideias, projetos, análises complicadas, propostas sutis, metas de
longo prazo, mas entre espelhos. O que importa, como
sempre, é a imagem. Muitas ideias só atrapalham e os eleitores acabam morrendo
de sono ao invés de agitar bandeiras de um lado para outro. Ou desligam a
televisão.
Portanto, inventar coisas
simples. Coisas que possam ser repetidas por todos e assimiladas por todos.
Candidato inaugurando é ótima imagem. Candidato sorrindo também. Com crianças
no colo, então, é supimpa. Com a cabeça dependurada no ombro de quem tem popularidade,
também. Mas, como o povo precisa de líderes, é preciso que o candidato não
apenas sorria, mas mostre convicção, o que ele confunde com falar grosso,
apontar com o dedo de um lado para outro como se inimigos estivessem
espreitando nos quatro cantos da praça. Paranóia é uma grande arma eleitoral.
Nisso também se igualam candidatos e candidatas, pois, como se sabe, candidato não tem sexo. Candidatos têm interesses e precisam
ser interessantes, embora no geral consigam ser apenas interesseiros. É da política.
Depois, candidato acusa. É
preciso acusar, mas sem dados concretos, pois isso poderia comprometê-lo. Se um
deles usa a máquina pública, o seu adversário, que faz o mesmo, puxa o gatilho.
Por isso, as acusações costumam ser mútuas e, por uma lei matemática, se
anulam. Resultado zero.
O candidato precisa
incentivar os eleitores a ver na política algo semelhante ao futebol, o esporte
nacional. O que importa são os três pontos, a vitória,
o título. Vale falta, rasteira, empurrão, gol em impedimento. Vale tudo, pois a
causa é maior do que os homens e sobreviverá a eles. Aquela história dos fins e
dos meios, Ou, como disse uma candidata: as instituições devem ser éticas, não
os homens. Lutam por princípios que justificam qualquer botinada. A quem
interessar, dizem que se inspiram em Maquiavel, que
não leram ou leram errado. Como os leitores também não leram,
ninguém vai notar; Maquiavel, no fundo, era uma ingênua criatura perto dos
candidatos que conhecemos.
Como diria o Cardeal
Mazarin – a quem agradeço por ter permitido que eu psicografasse essa crônica
que me ditou do além – nós somos aquilo que parecemos ser. E concluo: um saco
de mentiras é uma das formas mais eficientes de se produzir um saco de votos.
Um saco cheio. De votos. Ou devotos.
e-mail: roberto.o.gomes@gmail.com